REPOUSO DO ADÔNIS Comédia nordestina de Paulo Jorge Dumaresq SINOPSE Repouso do Adônis é uma comédia ambientada em bordel decadente de cidade de pequeno porte do Nordeste brasileiro. Aborda a questão do poder e de seus desdobramentos no universo social da região. A secular relação entre dominador e dominado é vista como um problema intrinsecamente ligado à cultura que o homem nordestino recebeu durante a fase de colonização da região, resultando daí na formação de um caráter autoritário e machista. A trama tem início quando o Delegado Antão, ao saber que Dona Violeta, proprietária do bordel Repouso do Adônis, hospeda uma sobrinha dela no lupanar, passa a chantagear a cafetina com o intuito de possuir a adolescente Glória. Por seu turno, Dona Violeta faz um acordo com o boêmio e desocupado Sevé, no sentido de desmascarar o delegado. Sevé recorre a seu amigo Cosme, que, no final da peça, faz-se passar por Glória, pondo em conflito o delegado e sua esposa, Dona Cirene. Desmascarado o delegado, Sevé, astutamente, foge com Glória, proporcionando um inusitado final à peça. Da trama, ainda participa a prostituta Prazeres, fiel escudeira de Dona Violeta, e o travesti Dadá, um misto de prostituto e empregado doméstico. O Autor PERSONAGENS: Dona Violeta Sevé Prazeres Dadá Delegado Antão Glória Cosme Dona Cirene Dois funcionários de loja de material de construção REPOUSO DO ADÔNIS (Comédia em um ato) Ambiente/Cenário - É um bordel decadente, erguido em cidade de pequeno porte do interior do Nordeste brasileiro, que data da década de 1950. O prostíbulo é mobiliado com móveis caindo aos pedaços, indicadores da pobreza e da promiscuidade inerentes ao ambiente. No fundo, o cenário reproduz parede surrada, com duas portas. Adiante, mesas de bar, com cadeiras em cima e em volta, viradas. No centro médio, há um sofá em estado deplorável. Diagonalmente oposta ao sofá, uma cadeira de balanço, com urinol ao lado. À esquerda média, bar com copos, garrafas e cabaça. À direita média, uma radiola de ficha. ABERTURA PRAZERES, DADÁ A prostituta Prazeres e o travesti Dadá espanam o bar e o sofá, respectivamente. Estão de baixo astral, mal-humorados. Na tentativa de reverter a situação, Prazeres põe música brega na radiola de ficha. Arrisca alguns passos de dança, convidando Dadá a fazer o mesmo. O travesti declina do convite. Trilha vai à BG quando Sevé entra, coçando a genitália e cheirando a mão com indisfarçável prazer. Essa prática deve ser constante no decorrer da peça. CENA I PRAZERES, DADÁ, SEVÉ SEVÉ Cachaça! Música! (apalpando o traseiro de Prazeres) Mulher! Hoje eu quero zonear com a rapariga do pedaço. PRAZERES Vichi! que ele chegou com a moléstia dos cachorros. Ouça de uma vez por todas, ô dos chatos: se você pensa que aqui é casa de Orates, se engana redondamente. DADÁ E vá logo dando o fora de onde não é chamado, que a coisa aqui tá preta que nem urubu. SEVÉ Mas o que é que há? Que baixo astral é esse? DADÁ O babado é o seguinte, Sevé: o delegado Antão descobriu que Dona Violeta tá hospedando a sobrinha dela aqui no cabaré, sabe, e quer a todo custo tirar uma casquinha da menina. Ameaça até fechar o beréu, caso a patroa não ceda Glória pra ele chafurdar. O meganha tá num pé e noutro pra assar a cordeirinha de Dona Violeta. SEVÉ E aquele tacho da asa caída ainda tem óleo pr’aquilo? PRAZERES (provocativa) E como tem! Sábado passado ele esteve no meu quarto e me agarrou forte, e me beijou gostoso... (pequena pausa) Depois caímos na cama e fizemos de tudo. Foi tão bom! SEVÉ Vá parando por aí, Prazeres, que emoções baratas não me interessam. DADÁ Ih! tá com ciúmes da rapariga, (irônico) garanhão do Repouso? SEVÉ Vamos acabar logo com essa história, perobo. DADÁ Perobo, uma cebola, Sevé. Eu sou um travesti. Uma categoria superior. SEVÉ Pra mim, desmunhecou e falou fino é perobo. O resto Marta Suplicy explica. PRAZERES Por favor, vamos parar com a discussão! Este cabaré tá cheio de problemas, e vocês ficam discutindo veadagem... SEVÉ Mas, afinal, em que pé tá a situação? Conclua logo essa história, Dadá, que eu estou ficando curioso... DADÁ Pois bem, Sevé, além da ameaça de fechar o cabaré, aquele delegado mequetrefe tá jurando todo mundo de prisão, por atentado ao pudor e vadiagem, inclusive a sobrinha da patroa que ainda é virgem. SEVÉ (pensativo) Engraçado, eu não sabia que aquela bananeira que deu cacho tinha lá algum parente. CENA II PRAZERES, DADÁ, SEVÉ, mais DONA VIOLETA DONA VIOLETA (entrando em cena) Tenho sim, sou uma mulher honesta e não admito ser tratada como uma qualquer. Se você quiser se divertir na minha casa, se comporte como gente, Sevé. SEVÉ Sim senhora, Dona Violeta. Sou bem mandado. Pode deixar que eu vou me comportar como gente. (à parte) Até pra não perder a boca livre. Tudo bem. Tudo bem. Me perdoe, Dona Violeta. O fato é que foi Deus que me mandou nesse momento tão delicado. A senhora sabe que sou freguês antigo, e me preocupo (irônico) deveras com o bem-estar do pessoal desse (à parte) randevu. PRAZERES Sem demagogia agora, né, Sevé? Você sempre se comportou aqui como um canalha. Come e bebe sem pagar. Por favor, volte a ser canalha, porque só assim a gente vai se entender. SEVÉ Você falando assim até parece que eu sou o Brasil, que não paga a dívida. PRAZERES Que dívida, Sevé? SEVÉ A dívida social, Prazeres. A dívida social. PRAZERES Ah! bom. Porque a dívida com os gringos, ele vem pagando desde o império. DADÁ Será que vocês não podem parar de falar por uns segundos apenas?! Não vêem a gravidade da situação?! Deixem de conversar arisia, pelo amor de Deus. DONA VIOLETA Por favor, Sevé, me ajude a resolver esse problema. Minha sobrinha só tem quinze anos. Ainda é muito nova pra cair na vida. Olha, eu esqueço todas as suas dívidas, seus calotes na casa, se você ajudar minha Glória a sair dessa enrascada. SEVÉ Dona Violeta, diante do (irônico) grave quadro que se apresenta, (cínico) pensei bastante e, resolvi ajudar a senhora. DONA VIOLETA Puxa, Sevé, como é bom poder contar com um amigo. PRAZERES Mesmo sendo ele caloteiro, né, Dona Violeta? DONA VIOLETA Só me dá calote quem eu permito, Sevé. E a proposta tá lançada. Suas dívidas terão meu perdão desde que você me ajude, e não me trapaceie. Aliás, você já tá pensando em alguma solução pro problema? SEVÉ (dissimulando) Sim, já estou tramando algo pra encalacrar aquele delegado rasga-anjo. Tudo é uma questão de detalhes. Mas antes dos detalhes, minha (irônico) amiga Prazeres vai colocar uma lapada de dona-branca pra mim. Não vai, Prazeres? (olhar de Prazeres para Dona Violeta. Depois de autorizada pela patroa, a prostituta, a contragosto, dirige-se ao bar. Nesse ínterim, Sevé fica a cochichar no ouvido de Dona Violeta e apontar Prazeres) PRAZERES (retorna com um copo de aguardente) Toma tua dona-branca, ô dos chatos. SEVÉ (após tomar a cachaça) Eita pinga arretada, Dona Violeta! Nossa senhora! Essa é de primeira cabeçada. (apressado) Agora, vocês me dêem licença. Preciso tramar. Volto outra hora. Me aguardem, me aguardem. Vocês não perdem por esperar. (sai de cena) CENA III PRAZERES, DADÁ, DONA VIOLETA, menos SEVÉ DONA VIOLETA Digo só uma coisa, gente: se Sevé faltar com a palavra, que se prepare. Corto os possuídos dele e dou pro gato. PRAZERES e DADÁ Dá pra gente, dá, Dona Violeta. DONA VIOLETA É muito mau gosto de vocês. Com tanto possuído por aí, dando sopa, querem logo o do Sevé. PRAZERES A situação tá caótica, Dona Violeta. DADÁ Desesperadora! DONA VIOLETA Nesse caso, vão fazer michê na rua. DADÁ De jeito e maneira. Por nada. Ainda que me oferecessem uma bolada. DONA VIOLETA Por que toda essa banca, Dadá? PRAZERES (metediça) Dadá tá blefando, Dona Violeta. Passa pela cabeça da senhora que esse (irônica) poço de castidade possa recusar alguma transa, principalmente se tiver grana na parada? D-u-v-i-d-e-o-d-ó. Conheço Dadá desde o tempo que freqüentava o Cara e Coroa, em Natal. DADÁ Chega, Prazeres. Não carece de contar detalhes tão pequenos de nós duas. Ninguém pode dar mais uma de chique nesse cabaré, não, é? DONA VIOLETA Vocês estão doidinhas pra chafurdar, pra piranhar o Sevé. Pois não vão, não. Podem ir tirando o cavalinho da chuva. De agora em diante a presença do Sevé nessa casa será estritamente profissional. PRAZERES e DADÁ Quanta crueldade, Dona Violeta. Só por que a senhora amarrou o bode na sombra, fica agora querendo controlar a nossa vida sexual, com inveja da gente. DONA VIOLETA (ante o barulho de passos) Silêncio! Calados! Ouço passos de alguém se aproximando, e pode ser o delegado. CENA IV PRAZERES, DADÁ, DONA VIOLETA, mais SEVÉ SEVÉ (abruptamente) O bom filho à casa torna. PRAZERES Vichi! que retorno rápido. E aí? Cadê os detalhes do plano? DONA VIOLETA (ante a displicência de Sevé) Fala, Sevé, pelas chagas de Cristo. SEVÉ Calma, Dona Violeta. Confie em mim. Bolei um plano realmente infalível pra quebrar o corincho daquele meganha. Agora, vou precisar da ajuda de vocês pra levar a coisa adiante. DONA VIOLETA Desde já pode contar com a nossa ajuda, meu filho. SEVÉ (chamando os presentes) Bom, o plano é o seguinte... (sobe música incidental quando da exposição do plano. Exposto o plano, separam-se. Desce música) DADÁ E esse seu amigo vai topar a parada? SEVÉ Aí é que tá o problema. PRAZERES (desconfiada) Que problema, Sevé? SEVÉ É que Cosme tá exigindo uma certa quantia pra representar o papel. PRAZERES Ele ou você, explorador? SEVÉ Ele, Dona Violeta! Ele! Acredite em mim. DONA VIOLETA Sei não, Sevé. Sei não. Mas tudo bem. Diga logo quanto ele quer, que eu pago. SEVÉ Vejamos, Dona Violeta... (calcula mentalmente. Arrisca) Uns dois mil reais. DONA VIOLETA, PRAZERES e DADÁ O quê? Dois mil reais? DONA VIOLETA Escute aqui, Sevé: se lembre que eu já pendurei a bolsinha há muito tempo e, a minha aposentadoria, como a de todo brasileiro trouxa, não dá nem pra comer, quanto mais pra sustentar vagabundo da sua laia e da do seu amigo. SEVÉ Mas... é... que... Cosme também tem de comprar a maquilagem, um par de sapatos, um tecido pro vestido e ainda pagar a costureira, né, Dona Violeta? DONA VIOLETA Ah! fale com seu amigo. Diga a ele que pesquise os preços e contrate os serviços mais baratos. SEVÉ (à parte) Falando assim, até parece que consome. Pra gente não brigar, Dona Violeta, fica tudo por mil reais. Metade adiantada. A outra metade a senhora me dá depois. Tá bom assim? DONA VIOLETA (pausa curta. Pensa) Assim tá razoável. (tira o dinheiro dos seios) Tome logo a metade e vá cuidar pra que tudo saia como planejado. SEVÉ (matreiro) Dona Violeta, mas antes d’eu ir, dá pr’eu ver sua sobrinha, dá? Eu nunca vi ela. Além do mais, preciso tirar as medidas da menina pra prova da roupa no Cosme. PRAZERES (enciumada) Não senhor. Pode deixar que eu mesma tiro as medidas de Glória. Você é muito espertinho pro meu gosto. SEVÉ O que é isso, Prazeres? Você bem sabe que eu sou de confiança. Se não confiarem em mim, vão confiar em quem? Hein? (cínico) Só Deus sabe como é duro pra mim suportar uma suspeita de vocês. DADÁ Como ele tá humilde. Dá até peninha. (segurando os seios) Quer mamar? Quer mamar? DONA VIOLETA Baixaria tem hora, né, Dadá? E vá logo tratando de concluir a engomação dos lençóis. Você sabe que eu não mando duas vezes. Os lençóis estão lavados já faz uma semana, e nadica de nada. DADÁ (resmungando) Não sei pra que lençol, se não tem cliente pra deitar na minha cama... (sai de cena) CENA V PRAZERES, DONA VIOLETA, SEVÉ, menos DADÁ SEVÉ Então, Dona Violeta, posso ver sua sobrinha? DONA VIOLETA (concordando a contragosto) Tudo bem, Sevé. Mas fique sabendo que não quero muita pegação. Todo cuidado é pouco. Suas artimanhas são bastante conhecidas nessa casa. Nada de contato muito íntimo com minha sobrinha. SEVÉ Tá legal, Dona Violeta, mas se o plano fracassar não me venha culpar depois. DONA VIOLETA E PRAZERES TROCAM OLHARES DONA VIOLETA Vou confiar desconfiando, hein, Sevé? Veja lá o que você vai aprontar. (à prostituta) Prazeres, vá chamar Glória. Vamos dar um crédito de confiança a Sevé. PRAZERES (resmungando) Isso não vai dar certo. Conheço o Sevé de outros carnavais... (sai de cena) CENA VI DONA VIOLETA, SEVÉ, menos PRAZERES SEVÉ Dona Violeta, posso me servir de outra lapada? É só mais umazinha pra ficar no grau. DONA VIOLETA Você é incorrigível, hein, Sevé? Tá bom! Pode se servir da pinga toda. SEVÉ (ao tomar um trago, faz careta. Cospe de lado) Ave-maria! Tá subindo um fogo danado, Dona Violeta. DONA VIOLETA Pois se controle, homem, que sei como apagar seu fogo. Qualquer atitude suspeita com minha sobrinha, a parada será comigo. E tenho dito! SURGEM PRAZERES E GLÓRIA CENA VII DONA VIOLETA, SEVÉ, mais PRAZERES e GLÓRIA SEVÉ (ante à presença de Glória) Nossa Senhora do Perpétuo Socorro me acuda. Nunca vi tanta beleza em um só rosto. (troçando) Só sendo sobrinha da senhora, Dona Violeta. (ousado, dispensa apresentações) Muito prazer, Glória. Encantado! GLÓRIA O prazer é todo meu, Sevé. DONA VIOLETA (ao perceber empatia) Prazeres, providencie a fita métrica. Vamos tirar logo essas medidas. PRAZERES Aguarde no sinal amarelo, Dona Violeta, que é pra já. (sai de cena) CENA VIII SEVÉ, DONA VIOLETA, GLÓRIA, menos PRAZERES GLÓRIA (fazendo-se de desentendida) A senhora falou em tirar o quê, titia? DONA VIOLETA Suas medidas, minha filha. GLÓRIA Por um instante, cheguei a pensar em outra coisa. (à parte) Com tia na zona só posso imaginar sacanagem. DONA VIOLETA Aquela outra coisa só quando você se casar, porque de falada na família já basta eu. GLÓRIA Não diga isso, titia. A senhora é respeitável, honesta, além de ser maravilhosa. É a melhor tia do mundo. Não se maltrate, não. DONA VIOLETA Obrigada, querida, mas é que não sei medir as palavras. Não tive estudo decente quando jovem. Aí, às vezes, falo besteira. Isso é da minha formação. CENA IX SEVÉ, DONA VIOLETA, GLÓRIA, mais PRAZERES PRAZERES Aqui tá a fita métrica, Dona Violeta. Mas eu continuo achando que eu ou a senhora é quem deve tirar as medidas de Glória. DONA VIOLETA (ríspida) Você não acha nada, Prazeres. Sei o que estou fazendo. E não se fala mais nisso. (repassa a fita métrica) Pronto, Sevé! Comece a tirar as medidas. SEVÉ Me permita, senhorita Glória. (com indisfarçável cinismo, Sevé põe-se a tirar as medidas de Glória. Nesse entretempo, Dona Violeta e Prazeres observam aflitas a operação. Concluído o trabalho, Sevé passa a mão na testa a tirar o suor) Muito bem. Muito bem. As medidas estão tiradas. Agora é só ajustar elas às do Cosme e ir à costureira. Acho que meu amigo vai ter que emagrecer um pouquinho, pra caber nessas medidas. (às três) Bem, (irônico) senhoritas, parte da missão tá cumprida. E vou nessa pra não perder mais tempo. DONA VIOLETA Olha lá, hein, Sevé? Estou botando fé em você. Não vá me decepcionar. E pé no mundo que o delegado já deve vir a caminho, pra uma visita de cortesia, e eu não quero que ele lhe encontre na casa. PRAZERES É. O delegado me chamou hoje na cadeia e disse que viria aqui às oito horas. SEVÉ (certificando-se da hora) Meu Deus, são dez p’ras oito. Pode deixar, Dona Violeta, o fodão aqui não vai decepcionar a senhora, não. (dirige-se à Glória, malicioso) Até logo, meu céu, você não perde por esperar. GLÓRIA Ficarei à sua espera, Sevé. Até daqui a pouco. SEVÉ Certamente, Glória. Certamente. (aos demais) Gente, vou num pé e volto noutro. Trarei boas novas. E segurem a onda com o delegado. (sai de cena) CENA X DONA VIOLETA, PRAZERES, GLÓRIA, menos SEVÉ GLÓRIA Puxa, Sevé é um rapaz muito simpático. Tenho certeza que é de absoluta confiança. Por ele eu ponho a mão no fogo. PRAZERES Não se fie no Sevé, não, Glória. Aquele é pilantra dos bons. Já é conhecido nosso de longa data, hein, Dona Violeta? DONA VIOLETA Prazeres tem razão, minha filha. E é bom a gente ficar sempre alerta quanto aos atos dele. BATIDAS NA PORTA PRAZERES É ele, Dona Violeta! O que vamos fazer? DONA VIOLETA Você vai pro bar e deixa que eu me encarrego de abrir a porta. (à sobrinha) Glória, agora suba. Volte pro quarto. Porque com toda certeza é o delegado. GLÓRIA Sim senhora, tia minha. (sai de cena) CENA XI DONA VIOLETA, PRAZERES, mais DELEGADO, menos GLÓRIA DONA VIOLETA (ao abrir a porta) Delegado Antão! DELEGADO Com sua permissão, Dona Violeta. DONA VIOLETA Claro, delegado, pode avançar mais uns palmos. DELEGADO É um prazer renovado poder estar mais uma vez no seu estabelecimento, Dona Violeta. Um prazer, não. Uma honra. (à parte) Aliás, honra é o que não vai me faltar aqui. DONA VIOLETA O quê, delegado? DELEGADO Bom... não... nada... Eu disse que é uma honra estar em tão agradável lugar. DONA VIOLETA (apontando o sofá) Sente delegado. Fique à vontade. DELEGADO Obrigado, Dona Violeta. (senta) DONA VIOLETA O delegado aceita uma pinga? DELEGADO Aceito de bom grado, Dona Violeta. (malicioso) Mas pode ser naquela cabaça? DONA VIOLETA Com toda certeza, delegado. (incontinente) Prazeres, sirva uma pinga pro delegado na cabaça. PRAZERES Sim, Dona Violeta, eu levo a pinga do delegado na cabaça. DONA VIOLETA (ao delegado) Se tem uma coisa que Prazeres sabe fazer bem é levar pinga na cabaça. DELEGADO Positivo, Dona Violeta. Isso ela sabe fazer mesmo muito bem. Sem dúvida. (pigarreando) Rraamm! Rraamm! DONA VIOLETA (fazendo-se de desentendida) Mas, delegado, o que traz o senhor ao meu humilde estabelecimento? DELEGADO (constrangido com a presença de Prazeres) Será que dá pra gente conversar em particular, Dona Violeta? DONA VIOLETA Prazeres, tá na hora de lavar a louça do jantar. Me deixe a sós com o delegado. PRAZERES (aborrecida) Eu sou só uma, né, Dona Violeta? Deixe primeiro eu servir a pinga do delegado. Aqui está, delegado. DELEGADO Muito obrigado, Prazeres. Você não é uma má menina. PRAZERES Delegado, você me... DONA VIOLETA (cortando) Prazeres! Veja como se dirige ao delegado. PRAZERES Mas Dona Violeta... DONA VIOLETA Pra cozinha! Pra cozinha! Sem reclamação. A louça tá esperando pela distinta. PRAZERES (resmungando) Tá bom, Dona Violeta. Vou deixar passar mais essa... (sai de cena) CENA XII DONA VIOLETA, DELEGADO, menos PRAZERES DONA VIOLETA Vamos direto ao assunto, delegado. O que o senhor deseja? DELEGADO Bem, Dona Violeta, é sobre sua sobrinha Glória. Você já pensou a respeito da proposta que lhe fiz? DONA VIOLETA Proposta? Ambom! O senhor está exigindo que eu lhe entregue minha sobrinha pra fazer o mal a ela. Isso sim. DELEGADO Dona Violeta, a história agora é outra. Como reconheço seus (irônico) relevantes serviços prestados à nossa comunidade, pensei sobre o caso e refiz a dita cuja. DONA VIOLETA E que dita cuja é essa agora, delegado? DELEGADO É a melhor possível, Dona Violeta: você me cede sua sobrinha por apenas uma vezinha que, em troca, mando reformar... (olha com desdém para o ambiente) essa espelunca. DONA VIOLETA Alto lá, delegado. Eu sei que o senhor é a autoridade aqui, mas não vou permitir que caçoe, que humilhe meu estabelecimento. Afinal de contas é o meu ganha-pão. FALSO CHÔRO DE DONA VIOLETA DELEGADO Se acalme, Dona Violeta. Não tive a intenção de caçoar do seu estabelecimento. (ante o chôro) Posso continuar a expor minha proposta, Dona Vio... (o chôro agora é compulsivo. O delegado se enerva) Êta! mulher chorona. Você precisa se acalmar, pra que eu possa terminar de expor a proposta. Veja que seu futuro profissional está em jogo! DONA VIOLETA Mas, delegado, não pode ser com uma das meninas? Da Guia retorna de Natal semana que vem, e Prazeres está sempre à sua disposição. O senhor escolhe. DELEGADO Que história é essa, Dona Violeta?! Nenhuma dessas rameiras me serve mais. Eu quero é carne nova. (tom) Compreenda, criatura: sua sobrinha é jovem e toda durinha... Vai me satisfazer muito mais. Você sabe que sei fazer a coisa certa. DONA VIOLETA E essa pobre menina, como vai ficar depois de tudo? Nunca mais será a mesma. Talvez até se prostitua. O senhor não tem sentimento? DELEGADO Dona Violeta, eu já conheço o seu jogo posocodélico. Desculpe, posocológico. Portanto, não vou admitir que me passe a perna com essa conversa mole. E tem mais: eu posso tudo. Sou a autoridade máxima da cidade. (pensa melhor) Bem... quer dizer... depois do prefeito, do vigário, do juiz... DONA VIOLETA Eu vou contar a sua chantagem ao juiz. DELEGADO Aquele lá?! Rá! Rá! Rá! Rá! Rá! É o maior come-quieto da cidade. Tem o rabo preso com quase todas as ex-donzelas que eu conheço. Não adianta, Dona Violeta. Você não tem saída: libera Glória ou então nada de reforma. Vai continuar sem cliente nesse cabaré caindo aos pedaços. E se me irritar muito, volto atrás e mando fechar a espelunca. DONA VIOLETA (enxugando as falsas lágrimas) Tudo bem, delegado, o senhor venceu. Terá minha pequena Glória. DELEGADO (exultante) Bravo, Dona Violeta. Assim é que se fala. Amanhã mesmo irei tratar da reforma do seu (irônico) estabelecimento. E quanto à noite fatal? Quando poderei vir gozar com a sua sobrinha? DONA VIOLETA (contando nos dedos) Hoje é terça. Terça... quarta... quinta... sexta... sábado... Sábado o senhor pode vir, que terá o que deseja. DELEGADO Me deixe ver... (pensa) Fechado! Primeiro, deixo a patroa na casa da mãe, que está adoentada, e, depois, venho pra cá me deliciar com os prazeres da carne. Deverei chegar por volta das oito e meia. Bom, Dona Violeta, diga à jovial Glória que fique bem bonita, e não tenha receios quanto à primeira noite. Tudo vai dar pé. Até sábado, Dona Violeta. (sai de cena) DONA VIOLETA Até sábado, (baixinho) alma penada. (após a saída do delegado) Vá pela sombra do muro do cemitério. CENA XIII DONA VIOLETA, mais PRAZERES e DADÁ, menos DELEGADO PRAZERES e DADÁ (pé ante pé) Tudo certo, Dona Violeta? A senhora conseguiu passar a perna no meganha? DONA VIOLETA Tudo agora depende do Sevé e do amigo dele, gente. Se eles não derem pra trás, tenho certeza que o plano vai colar. DADÁ Pois eu tenho pra mim que o Sevé vai armar rede com puxa-puxa pra gente. CENA XIV DONA VIOLETA, PRAZERES, DADÁ, mais SEVÉ SEVÉ (cantarolando a música “Emoções”, de Roberto Carlos) “Quando eu estou aqui, eu vivo esse momento lindo...” Severino Firmino da Silva, presente! DONA VIOLETA Você enlouqueceu, Sevé? Por pouco não cruza com o delegado. SEVÉ Não se preocupe, Dona Violeta. Tomei as devidas precauções, e trago novidades. DONA VIOLETA (aflita) Então, meu filho, tudo encaminhado? SEVÉ (sentando-se) Tudo encaminhado, Dona Violeta. O Cosme já tá tomando todas as providências necessárias. E a conversa com o delegado? O que foi que a senhora acertou com ele? DONA VIOLETA O suficiente pra estrepar o meganha. Ele saiu daqui que era só soberba. Agora aquele pilantra vai cair feito bolsa de valor na economia globalizada. E a mulher do galo-enfeitado, já foi convidada pra nossa esparrela? SEVÉ Não, Dona Violeta. A senhora não me disse ainda o que acertou com o meganha, então como é que eu pude ter avisado à chifruda. DONA VIOLETA Ih! é mesmo. Mas tá tudo combinado. SEVÉ Pois me fale, mulher. PRAZERES Olha o tratamento com Dona Violeta, Sevé! Você tá pensando que ela é sua pariceira, tá? SEVÉ Mis desculpas, Dona Violeta, não tive a inten... PRAZERES (irônica) Ah! como ele tá bonzinho... DADÁ Irreconhecível. PRAZERES Vai ver que tá estudando pra ser padre. DONA VIOLETA (interrompendo) Vocês podem parar de provocar o Sevé? Podem? Não vêem que ele tá cheio de boas intenções?! PRAZERES e DADÁ Huummm! De boas intenções o inferno tá (fazendo gesto de pisca-pisca) assim! DONA VIOLETA Vocês não se emendam mesmo, né? Qualquer motivo é motivo pra caçoar do Sevé. Dá um tempo, gente. Essas provocações não levam a nada. Por favor, deixem o Sevé em paz. Será possível? (ríspida) E vão buscar uma cachacinha pro nosso freguês! PRAZERES E DADÁ DIRIGEM-SE AO BAR, RESMUNGANDO. SEM PRESTAR ATENÇÃO, DERRUBAM ALGUMAS GARRAFAS DE BEBIDA. DONA VIOLETA Vocês estão loucos? Querem destruir o pouco que tenho? PRAZERES e DADÁ Desculpe, Dona Violeta, é que nós estamos nervosas. SEVÉ (à parte) É isso que dá falta de homem no organismo. DONA VIOLETA Falou, meu filho? SEVÉ Não, não, Dona Violeta. Nada a declarar. A senhora é que tem de me dizer o que conversou com o delegado. Me conte tudo, não me esconda nada. DONA VIOLETA Tá certo. Contarei tudo, Sevé. Marquei pro próximo sábado a derradeira visita do delegado a esta casa. PRAZERES e DADÁ (interrompendo) Aqui está, Sevé. A pinga é toda sua. SEVÉ Então, pinga em mim. (toma a bebida) DONA VIOLETA Agora vocês subam, que tenho um particular com o Sevé. Vão, vão. Chô! CENA XV DONA VIOLETA, SEVÉ, menos PRAZERES e DADÁ DONA VIOLETA Como eu ia dizendo, Sevé, será sábado a última e definitiva visita do delegado ao meu estabelecimento. O meganha marcou comigo às oito e meia. Dessa vez ele vai encontrar o chapéu da viagem. Se Deus quiser, a minha pequena Glória ficará livre de perigo, e eu poderei respirar mais aliviada. E a sua parte, meu filho, tá cumprindo com seriedade? SEVÉ Com seriedade e competência, Dona Violeta. A senhora não se preocupe. Amanhã mesmo irei abrir o jogo pra Dona Socorro, a mulher do delegado. Aquela que pisca quando vê homem pela frente. Dizem por aí, que ninguém nos ouça, que ela é mui íntima do cabo Assis. O povo é que conta isso. Pra mim pouco importa se ela chifra o marido ou não. A cabeça enfeitada não é minha... DONA VIOLETA (cortando) Pode guardar os seus mexericos, Sevé, que eu não quero saber o que a infeliz da mulher do delegado faz ou deixa de fazer. E agora faça o favor de se retirar, que (bocejando) o sono tá me pegando, e amanhã é dia de branco. SEVÉ Tá bem, Dona Violeta. Mas antes da senhora pegar no sono, dá pra adiantar a outra parte do combinado? A fatiota tá quase pronta e a costureira exige receber o pagamento em cima da bucha. E sem vestido não tem plano, né? DONA VIOLETA Você sempre me convence, Sevé. (tira o dinheiro dos seios) Toma a outra parte. E agora me deixe dormir. SEVÉ Pois tá certo, Dona Violeta. Até sábado. Deverei chegar com o Cosme logo depois do jantar, pra preparar tudo com calma. DONA VIOLETA Então, até sábado, Sevé. Juízo, hein? SEVÉ Não se preocupe, Dona Violeta, que juízo tenho pra dar e vender. (sai de cena) CENA XVI PRAZERES, DADÁ, COSME COSME (no dia seguinte) Oi, tudo bem? Vocês trabalham aqui? PRAZERES e DADÁ (param de varrer o bordel) O que é que você acha, bonitão? COSME Eu? Eu não acho nada. Só procuro. PRAZERES E o que é que o bonitão procura? É a mim, não é? Confessa! Não se acanhe, não. O cabaré é todo seu. Eu sou toda sua. DADA Prazeres, eu acho que você se enganou. O bonitão tá procurando é por mim. (a Cosme) Não é mesmo, pedaço de mau caminho? COSME Eu não vim atrás de vocês, não. Estou aqui por outro motivo. DADA Mas não é possível! Já estou por aqui com essa vida de abstinência forçada. PRAZERES E eu cheia de tanta teia de aranha. COSME Moças, me ouçam. DADÁ Ai, que chique. Nunca fui tratada assim antes. Sou a própria, sou a própria. PRAZERES (ante à perplexidade de Cosme) Não ligue pra travesti de terceira, não, moço. Todo ele tem comichão naquele canto. DADÁ E você tem furor interino até quando ver menino. Tá pra tu?! (a Cosme) Mas diga quem você tá procurando, bonitão? COSME Estou procurando meu amigo Sevé. Vocês conhecem ele, não conhecem? PRAZERES e DADÁ Infelizmente, conhecemos. E o que é que o distinto quer com o troço do Sevé? COSME Quero saber dele quando será o dia da missão. DADÁ Ele ainda não disse a você? COSME Não. Estou por fora. PRAZERES Vai ser sábado, rapaz. O Sevé não se emenda, não. Tenho certeza que deixou pra avisar você na última hora. DADÁ Sujeitinho irresponsável. COSME O Sevé é assim mesmo. Mas é um bom sujeito. E ele me contou tudo, viu? Não carece de preocupação, não. Sei da minha missão e vou cumprir ela à risca. Se a pessoa que o Sevé falou estiver realmente em dificuldade, eu ajudarei ela sem nenhum problema. Eu gosto de servir ao próximo sem olhar a quem. PRAZERES (chama Dadá a um canto) Das duas uma, Dadá: ou esse cara disfarça muito bem, ou estamos diante de um franciscano. DADÁ Eu não estou entendendo mais nada. Quisera Deus que ele fosse pelo menos um come-quieto. Aquelas coisas. COSME Moças, pelo adiantado da hora, estou chegando. Sábado, sem falta, estarei aqui. Até mais ver, viu? PRAZERES Calma, rapaz, a pressa é inimiga da perfeição. E todo apressado come cru. DADÁ Prazeres, cuidado com esse trocadalho do carilho. (abraçando Cosme) Assim fico atacada, e não respondo por mim. COSME Vichi, meu Cristo. Vocês duas têm parte com o Tinhoso. Deus que me livre e guarde. Aqui eu não fico mais não. (sai de cena) DADÁ (atrás de Cosme) Ei, bonitão, espera um pouco. Vamos fazer pelo menos uma demonstração de esgrima. (sai de cena) PRAZERES (idem) Não vá assim sem tocar em mim, bonitão. Espera. Pra que tanta pressa? Aonde você vai que não me leva junto? (sai de cena) CENA XVII DONA VIOLETA, GLÓRIA GLÓRIA Ai, titia, estou tão preocupada. Não vejo a hora de acabar logo com esse pesadelo. DONA VIOLETA Cabeça fria, minha filha. Logo, logo o Sevé estará aqui com o amigo dele, pra gente resolver essa situação. GLÓRIA Deus lhe ouça, tia minha, pois do contrário estarei ferrada. DONA VIOLETA Ferrada com meia. GLÓRIA (fazendo-se de desentendida) Ferrada com meia? O que significa isso, tia minha? DONA VIOLETA Meia-sola, Glória. Você não sabe, mas o delegado já não tá mais com aquelas bolas todas, e precisa de algo pra levantar o moral da tropa. É aí que entra a meia-sola. GLÓRIA Continuo sem entender, titia. DONA VIOLETA Pois continue sem entender, que essa não é conversa pra menina donzela como você, não. É pra mulher experiente como eu. (à parte) Ou seja, é pra puta velha. CENA XVIII DONA VIOLETA, GLÓRIA, mais SEVÉ e COSME SEVÉ (entra em cena, acompanhado de Cosme, cantarolando a música ”Tudo está no seu lugar”, de Benito di Paula) “Tudo está no seu lugar,/Graças a Deus, graças a Deus...” GLÓRIA Salve, salve, Sevé. Que bom que você veio. E aí, tudo em cima? SEVÉ Comigo tudo está sempre em e (faz gesto imitando um pênis ereto) para cima. DONA VIOLETA Ó meu filho, graças a Deus que você veio. Estava tão apreensiva. SEVÉ Não há o que temer, Dona Violeta. Está tudo como manda o figurino. Ou, como queiram, (apontando para Cosme) o figurante. Dona Violeta, este é o Cosme: o dublê de Glória. (à queima-roupa) O que está achando do meu amigo? DONA VIOLETA (irônica) Nossa! Nunca vi cópia mais perfeita de Glória. Fique à vontade, Cosme. Faça de conta que a casa é sua. E você sabe: em casa de flor, perfumoso é sempre bem-vindo. COSME (lisonjeado) Obrigado pela confiança, Dona Violeta. Farei de tudo pra não decepcionar a senhora nem a sua sobrinha. Por falar na sobrinha da senhora, Dona Violeta, eu posso me apresentar a ela? DONA VIOLETA É claro, Cosme. Vá em frente. COSME Muito prazer, Glória. Encantado. A senhorita parece mais uma estrela de cinema. GLÓRIA O que é isso, Cosme?! São seus olhos. E o prazer é todo meu, viu? SEVÉ (com revelador ciúme) Dispersando, Cosme. Dispersando. É bom agirmos logo, pois o delegado não tardará a chegar. DONA VIOLETA (percebendo a ciumeira de Sevé) Ora, Sevé, de pressa morreu João apressado. O rapaz acaba de chegar e você não deixa ele tomar as feições do ambiente. SEVÉ É que Cosme é muito esperto pro meu gosto, Dona Violeta. Eu soube de umas coisas que ele aprontou com várias moças donzelas lá das bandas do Seridó, e depois deu no pé. São cinco ao todo. Estão todas com a barriga por acolá. Só quero dar o toque, Dona Violeta. Quem avisa amigo é. A senhora entende, não entende? DONA VIOLETA (irônica) Entendo perfeitamente, Sevé. Você falou, tá falado. SEVÉ (a Cosme) Vai lá, rapaz. Vai lá trocar de roupa, que a gente não tem a noite inteira. DONA VIOLETA O banheiro é na segunda porta à esquerda, Cosme. Pode se trocar sem pressa. (a Glória) Minha filha, acompanhe o moço e ajude ele no que for preciso. SEVÉ Dona Violeta, o que significa isso? Não estou gostando nada dessa história. Todo cuidado é pouco com o Cosme. DONA VIOLETA Deixa de preocupação boba, Sevé. A Glória sabe se cuidar. E tenho certeza que o Cosme é um rapaz respeitador, acima de qualquer suspeita. COSME A senhora, Dona Violeta, pode confiar em mim de olhos fechados, que sou mesmo acima de qualquer suspeita. DONA VIOLETA Pois então se concentre no papel de Glória e sucesso. COSME Muito obrigado, Dona Violeta. GLÓRIA (sensual) Com sua licença, Sevé, estou me recolhendo. SEVÉ (a contragosto) A licença está dada, Glória. Mas fique de olho bem aberto no Cosme. GLÓRIA Pode deixar, Sevé. Farei tudo que você me pedir. (a Dona Violeta) Até daqui a pouco, titia. DONA VIOLETA Até logo, minha filha. Fique tranqüila, calma, que a gente vai resolver a parada com o delegado. Aproveite e diga a Dadá e a Prazeres que quero falar com os dois. GLÓRIA Pode deixar, titia. Até mais ver. (sai de cena com Cosme) CENA XIX DONA VIOLETA, SEVÉ, menos GLÓRIA e COSME DONA VIOLETA Então, Sevé, falou com a mulher do delegado? Ela virá? SEVÉ Virá. E virá feito cobra cascavel se arrastando na catingueira sob o sol do meio-dia, fumando numa quenga. A mulher ficou com a bexiga taboca, Dona Violeta. Disse que vai esganar o marido. Aquele desgramado dessa vez vai entrar bem. A senhora não acha? DONA VIOLETA Acho, sim. Mas prossiga. Me diga o horário que você marcou com a mulher do meganha? SEVÉ Por volta das nove horas. (pequena pausa. Faz cálculos mentais) A senhora marcou com ele às oito e meia. É... Creio que dará tempo da gente resolver tudo. DONA VIOLETA Que horas são agora, Sevé? SEVÉ (consulta relógio) Oito e vinte, Dona Violeta. DONA VIOLETA Dez p’ras oito e meia? Xiiiiiii! Meu Deus! O delegado não tarda. Agora suma, Sevé. Corra. Chô, chô, que o meganha vem que vem. SEVÉ Pode deixar, Dona Violeta. Se for pro bem de todos e felicidade geral minha, no mais estou saindo de cena. CENA XX DONA VIOLETA mais PRAZERES e DADÁ, menos SEVÉ DADÁ (entrando em cena com Prazeres) E o mequetrefe do delegado, que não chega!? Estou exausta com esse clima tenso no cabaré. PRAZERES Deixa de onda, Dadá. Ânimo. Vai dar tudo certo. Você vai ver. (a Dona Violeta) A senhora mandou chamar a gente, Dona Violeta? DONA VIOLETA (após tomar um trago de pinga) Mandei, sim. Quero que vocês fiquem aqui comigo de sobreaviso, que o delegado tá chegando. É só uma questão de tempo. DADÁ Seria tão bom se o delegado desistisse de tudo, não, Dona Violeta? DONA VIOLETA Desiste, não, Dadá. O delegado é conhecido pela persistência. Eu bem sei. Conheço a peça o suficiente pra não me iludir. Mas se esse episódio fosse nos áureos tempos, bastaria uma conversa de pé de ouvido com o governador, pra que o meganha fosse deposto do cargo. Naquela época tudo era diferente. (sai rodopiando pela sala em um delírio) A divina Violeta recebia políticos, militares, empresários, a grã-finagem norte-rio-grandense, encantando a todos quantos freqüentassem o Repouso do Adônis. (sobe música de bolero. Dona Violeta delira) O cavalheiro me concede esta contradança? Com prazer, divina Violeta. DONA VIOLETA ARRISCA ALGUNS PASSOS DE BOLERO COM UM PARCEIRO IMAGINÁRIO. DESCE MÚSICA. DADÁ (interrompendo a performance) Caia na real, mulher. Divina Violeta é coisa do passado. DONA VIOLETA (recompondo-se do transe) Foi bom aquele tempo. Foi bom. DADÁ Só que o tempo passado não volta mais, Dona Violeta. Então, vamos tratar de encarar a realidade. E a realidade é o delegado. BATIDAS NA PORTA. TODOS CONGELAM POR UM INSTANTE. DONA VIOLETA A praga chegou. Dadá, atenda a porta. Prazeres, corra pro bar e ponha pinga na cabaça. CENA XXI DONA VIOLETA, PRAZERES, DADÁ, mais DELEGADO DADÁ (recepcionando o delegado) Olá, enxutão. Entre. DELEGADO Vê como fala comigo, perobo. Dona Violeta se encontra? DADÁ Se encontra. Pode emburacar. DELEGADO Olha, maricas, os modos como trata uma autoridade! Eu não sou pariceiro seu, não. Ouviu bem? DONA VIOLETA (adiantando-se) Até que enfim, delegado. Como vai o senhor? DELEGADO Eu vou bem, Dona Violeta. E a senhora? DONA VIOLETA Como Deus quer e consente. (apontando o sofá) Faça o favor de se sentar, delegado. DELEGADO Obrigado, Dona Violeta. (irônico) A senhora é muito gentil. (senta) PRAZERES (com a pinga na cabaça) A de sempre, delegado. Oferta da casa. DELEGADO Essa chegou em boa hora, Prazeres. Estou deveras sedento. Obrigado. (toma a pinga de um só gole, faz careta e cospe de lado) Bem, Dona Violeta, vamos ao que interessa. Onde está sua sobrinha Glória? DONA VIOLETA Calma, delegado, que ela já desce já. (a prostituta) Prazeres, vá chamar Glória. Diga a ela que o delegado chegou. PRAZERES É pra já, Dona Violeta. (sai de cena) CENA XXII DONA VIOLETA, DADÁ, DELEGADO, menos PRAZERES DONA VIOLETA (percebendo o nervosismo do delegado) Nervoso, delegado? DELEGADO Um pouco, né, Dona Violeta? Afinal de contas não é todo dia que tenho a honra de... bem... bem... é... de... deflorar uma ninfeta. CENA XXIII DONA VIOLETA, DADÁ, DELEGADO, mais PRAZERES e COSME PRAZERES (anuncia a entrada de Glória na pele de Cosme ) Atenção! Muita atenção! Com você e só pra você, delegado, a mais encantadora jovem desse pedaço de chão potiguar. Glória! DELEGADO (estendendo a mão para Cosme) Bestificado, arrebatadora Glória. Pessoalmente a senhorita é muito mais formosa do que nos meus pecaminosos pensamentos. COSME E o senhor, delegado, é muito do enxuto. DELEGADO Bondade sua, senhorita. Bondade sua. DONA VIOLETA (fazendo sinal para que Prazeres e Dadá deixem a sala) Bem, vamos deixar os dois a sós. Eles precisam de um tempo pra se conhecerem melhor e se acertarem. (ao casal) Se divirtam que a vida é curta e exige pressa. (sai de cena) CENA XXIV DELEGADO, COSME, menos DONA VIOLETA, PRAZERES e DADÁ DELEGADO Então, Glória, vamos sentar? COSME Vamos, meu xerife. Temos muito o que fazer sentados, e deitados, não? O CASAL SENTA NO SOFÁ. PAQUERAM. O DELEGADO OLHA FIXAMENTE PARA COSME. ELE SE ENVERGONHA. TENTA ABAIXAR A CABEÇA. O DELEGADO A ERGUE, ACARICIANDO-A. FAZ-LHE CARINHOS. COSME RETRIBUI. NESTE ÍNTERIM, PRAZERES ENTRA EM CENA, SORRATEIRAMENTE, E PÕE MÚSICA ROMÂNTICA NA RADIOLA DE FICHA. CONCLUÍDA A MISSÃO, SAI DE CENA SEM SER NOTADA. ENQUANTO ISSO, O NAMORO PROSSEGUE NO SOFÁ. O DELEGADO BEIJA COSME, MAS ESSE SE AFASTA. INSISTÊNCIA DO DELEGADO. DESTA FEITA, COSME CONSENTE. NO CLÍMAX DAS CARÍCIAS, O DELEGADO ABAIXA A MÃO EM DIREÇÃO À GENITÁLIA DE COSME. AO TOCAR EM ALGO QUE NÃO ESPERAVA ENCONTRAR, O DELEGADO EXASPERA-SE. DESCE MÚSICA. DELEGADO Êpa! que história é essa? Eu estou enganado ou você é um homem, Glória? Que coisa dura é essa no meio das suas pernas? BATIDAS INSISTENTES NA PORTA. PASSOS NO INTERIOR DA CASA. CENA XXV DELEGADO, COSME, mais DONA VIOLETA, PRAZERES, DADÁ e DONA SOCORRO DONA VIOLETA (cínica) O que tá se passando aqui, delegado? DELEGADO Uma coisa muito estranha, Dona Violeta. PRAZERES e DADÁ (ante às batidas, atendem a porta) Dona Socorro! DELEGADO (amedrontado) O quê? DONA SOCORRO Muito bonito, Antão! Quer dizer que você estava na casa do juiz, tratando do problema do consumo de drogas na cidade?! Cabra sem-vergonha! Maridozinho de araque é o que você é. DELEGADO Socorro, eu posso explicar. DONA SOCORRO Explicar o quê? O inexplicável? Cretino. Você vai se ver comigo. Dessa vez a surra será de rebenque. Mal posso acreditar no que vejo. Traição é o fim. DADÁ (intrometendo-se) Há muito tempo que o delegado enfeita a cabeça da senhora, Dona Socorro. PRAZERES (idem) E é freguês antigo, (fazendo gesto indicativo de tempo passado) ó. DONA SOCORRO Freguês antigo!? Então, a coisa era mais preta do que me pintaram. (parte para a agressão física) Tome isso, e isso, e mais isso, que é pra você aprender a respeitar sua mulher, cachorro da moléstia. DONA VIOLETA (incentivando a sova) Dá-lhe, Dona Socorro, que todo castigo pra tarado é pouco. (ao delegado) O que você estava pensando? Que eu iria deixar barato, hein, delegado? E o senhor saiba que esta não é a minha sobrinha Glória, que tanto desejava. Este aqui, na verdade, é o Cosme, um homem. DONA SOCORRO (volta-se para o delegado) Ora, seu pervertido, você estava me traindo com homem?! Você não se dá ao respeito, não, cabra safado? (puxando a orelha do delegado) E marche já pra casa. Lá nós acertaremos as contas bem direitinho. Vambora! COSME (ante à saída do delegado, revela dupla personalidade) Delegado, desculpe pelo transtorno causado, mas foi tão bom. DELEGADO Ora! vá pros quintos dos infernos, seu maricas. (sai de cena com Dona Socorro) CENA XXVI DONA VIOLETA, PRAZERES, DADÁ, COSME, menos DELEGADO e DONA SOCORRO DONA VIOLETA Prazeres, bote uma lapada de dona-branca pra mim. Dadá, corra e chame Glória e Sevé. Diga a eles que tudo foi resolvido. Aproveite e também traga os salgadinhos. Vamos comemorar o começo do fim do delegado. DADÁ Com o maior prazer, Dona Violeta. (sai de cena) CENA XXVII DONA VIOLETA, PRAZERES, COSME, menos DADÁ DONA VIOLETA Quanto a você, Cosme, vais beber e comer de graça aqui durante seis meses. Tá bom assim? PRAZERES (interrompendo, serve a cachaça à patroa) Prontinho, Dona Violeta, é só emborcar. OUVE-SE GRITO DE DADÁ DONA VIOLETA O que foi isso? CENA XXVIII DONA VIOLETA, PRAZERES, COSME, mais DADÁ DADÁ Tragédia, Dona Violeta. Tragédia. DONA VIOLETA O que aconteceu, Dadá? Por acaso, o presidente morreu? DADÁ Quisera Deus, Dona Violeta. Mas o babado é mais forte. E é notícia ruim. PRAZERES Desembucha, Dadá. DADÁ A Glória e o Sevé não estão mais no cabaré. O janelão do quarto da menina tá escancarado. Eles ganharam o bredo, Dona Violeta. Fugiram. DONA VIOLETA Santo Deus! Se isso for verdade aqueles dois me pagam. Você tem certeza, Dadá? DADÁ Absoluta, Dona Violeta! Vasculhei tudo e não encontrei uma viv’alma. Formiga quando quer se perder cria asas. PRAZERES É isso que dá contar com o ovo no cu da galinha. Bem que tentei alertar a senhora, Dona Violeta. Mas a senhora não quis me ouvir. Ficou embevecida com a lábia do Sevé e emprenhou pelos ouvidos. DONA VIOLETA Adeus minhas encomendas. COSME Que sacanagem do Sevé! E eu fico agora no ora e veja. OUVEM-SE BATIDAS NA PORTA DADÁ Vai ver eles se arrependeram e voltaram. DONA VIOLETA Prazeres, veja quem é. CENA XXIX DONA VIOLETA, PRAZERES, DADÁ, COSME, mais um FUNCIONÁRIO DE UMA LOJA DE MATERIAL DE CONSTRUÇÃO FUNCIONÁRIO (da porta) Telhado Material de Construção. Temos uma entrega para a senhora Maria Violeta das Quengas, por ordem do delegado Antão. PRAZERES Pode embiocar, bonitão. (à parte) Depois que o diabo foge, chegam as muletas. PARA ESPANTO DE TODOS, O FUNCIONÁRIO ADENTRA O PROSTÍBULO, TRAZENDO MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO, A SABER SANITÁRIOS, CAIBROS, TELHAS, TIJOLOS, VIGAS, TUDO COMO PROMETIDO PELO DELEGADO. DONA VIOLETA (à parte) Em que pese a falta de memória crônica dos moradores dessa cidade, até que uns tijolinhos, umas telhinhas, essas coisinhas, vêm a calhar. SOBE MÚSICA BREGA. CAI O PANO. Paulo Jorge Dumaresq Rua Santo Antônio, 703. Cidade Alta. Natal – RN CEP: 59025-520 Fone: (84) 222 5967 Fax: (84) 211 4082 E-mail: pjdumaresq@bol.com.br ou pjdumaresq@hotmail.com BIOBIBLIOGRAFIA DO AUTOR O teatrólogo e jornalista Paulo Jorge Dumaresq nasce na cidade do Rio de Janeiro a 31 de maio de 1964. Com apenas três meses de vida vem morar em Natal, onde reside até os dias de hoje. No ano de 1983 ingressa na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, onde cursa Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo, colando grau em 1988. Depois de algumas experiências no jornalismo, Dumaresq descobre o teatro e daí passa a escrever suas primeiras peças. Com dificuldade de encontrar um diretor que pudesse encenar seus textos, o dramaturgo resolve, por si mesmo, dirigi-los. Para isso, funda a Companhia de Repertório Do Riso ao Pranto. A estréia ocorre em outubro de 1993, com o espetáculo Bocas que murmuram, merecedor de duas montagens. Nesse mesmo ano, Dumaresq dirige ainda um esquete para o Supermercado São José, intitulado O Renascimento. O teatrólogo apresenta-se também no projeto Lança Poesia (FJA/TAM/1995), interpretando poemas de sua autoria. Após uma parada estratégica, Paulo Jorge Dumaresq retorna à cena com o espetáculo Os idos de março – A agonia de Júlio César, em abril de 1997. Em 1998, dirige o monólogo Jorges – A poesia de Jorge Fernandes no palco. Com esse trabalho obtém dez prêmios nacionais, inclusive o de Melhor Direção no III Festival de Monólogos de Marília. Nesse mesmo ano, também dirige o recital Palavras, palavras, palavras do poeta potiguar Dácio Galvão. No ano 2000, Paulo Jorge Dumaresq remonta Os idos de março, em versão monólogo, e ganha mais dois prêmios no IV Festival de Monólogos de Marília. Dramaturgia: · Repouso do Adônis (comédia – 1991). · Bocas que murmuram (tragicomédia – 1992). * · A fé controversa (drama – 1993). · Viúvos alegres (farsa – 1994). · Os patrões (tragicomédia – 1995). · Os idos de março (drama – 1997). * · Jorges – A poesia de Jorge Fernandes no palco (monólogo de poemas – 1998). * · Papo-amarelo (tragédia – 1999). · Com um rei na barriga (farsa – 2001). * * Encenado