PELOS LENÇÓIS DO MUNDO LIVRE (Drama urbano-periférico em ato único) de Ricardo Ottoni Vaz Japiassu Personagens MILA PÃO-DE-LÓ CHOURIÇA JAPINHA TITIA TELMA BOMBINHA GUGA SÔNIA DONA VILMA ZABELÃO ANDRESSA Alunos, professores e funcionários do período noturno da escola Primeira movimentação de personagens PÁTIO Entrada de alunos, professores e funcionários. Mila e Pão-de-ló caminham lado a lado. Pão-de-ló (Para Mila) Você recebeu? Mila O quê? Pão-de-ló O telegrama que te mandei ontem à noite… Mila Você é “podre”, garoto! Pão-de-ló Qual é, Mila?! (Olhando para a genitália de Mila) Cê sabe que eu me ligo na sua… Mila Desconfia Pão-de-ló?! Eu só curto menino que já faz barba . Pão-de-ló (Alisando a face com uma das mãos) No rosto ainda não nasceu cabelo, (Descendo a mão e colocando-a por dentro do cós da calça, próximo à braguilha) mas aqui em baixo tem a maior selva: a bichinha já tem bigode, cavanhaque e cabeleira! Mila (Dando uma cadernada na genitália de Pão-de-ló) Vai procurar sua turma, telegrafista de baheiro! Pão-de-ló (Gemendo) Ahnnnn… Entram Japinha e Chouriça. Japinha (Dando um beijo em Mila) Nem tocou o sinal do lanche e cê já tá fazendo omelete, gata?! Mila (Retribuindo-lhe o beijo na face) Ôi. Chouriça (Depois de cumprimentar Pão-de-ló com sucessivos toques-senha de mão) Tem jeito não, Lozinho, teu destino é mesmo apanhar das muié! Pão-de-ló Faz parte… Japinha (Cumprimentando Pão-de-ló com os mesmos toques-senha de mão) A Mila é cilada, mano! Chouriça (Após cumprimentar Mila com um beijo) Possa crer! A gata é “cabulosa”, meu irmão. Mila (Dirigindo-se eufórica à Telma Bombinha que acaba de chegar) Bomba, eu tô doida pra saber no que é que deu aquilo lá… (Afastando-se com Telma Bombinha) Pão-de-ló Trouxe? Japinha Tá na mão… Pão-de-ló Deixa eu ver?! Japinha mostra algo a Pão-de-ló no interior do bolso de sua ampla parca. Chouriça lhe dá cobertura. Entra Titia. Chouriça (Discretamente) Sujou! Titia (Sem deter a marcha) O time de vocês tá definido? Eu preciso da escalação completa para organizar a tabela do campeonato. Inclusive dos que vão ficar no banco. Japinha Só “falta” dois confirmar. Pão-de-ló Professor, o prêmio, é certeza mesmo? Titia Claro! O campeão do noturno leva troféu, medalha e cem reais. Chouriça Dois papelotes, uma caixa de loira e vinte barra de chocolate?! Hu-hu! A galera vai fazer a festa! Titia (Interrompendo a marcha) É sério?! Cês vão cheirar, beber e fumar todo o prêmio se ganharem o torneio?! Japinha Chouriça tá “apavorando”, Titia! Pão-de-ló É treita, professor! (Titia retoma a marcha meneando a cabeça. Para Chouriça, baixo) Se liga mané! Titia (Para Pão-de-ló, afastando-se) Vê se me passa a relação dos jogadores ainda hoje! Vou estar na quadra até o último horário… (Olhando para Chouriça) Droga nada a ver! Pão-de-ló (Dando um chute em Chouriça) Vacilão! Japinha Tá a fim de “entregar” a galera?! Chouriça Aí: escapou. Pão-de-ló Titia é caretão, mané! Chouriça Qual é?! O cara tá ligado que a gente é “nóia”. Quer saber?! Tem mais é que “apavorar”, meu compadre! Japinha É, eles sabem, mas fazem-de-conta que não sabem. Pão-de-ló E a gente faz-de-conta que não sabe que eles sabem, tá ligado?! Japinha É a lei. Chouriça Porra de lei fodida! Japinha Qual é, Chôra?! Nem todos mano assume dar uns teco e “baforar”. Chouriça Eu assumo! E aí? (Falando para onde Titia saiu) Cês vão ter que me engolir! Pão-de-ló Senti firmeza no “zagalo”! Japinha É… O boy né fraco não. Chouriça (Ainda na direção por onde Titia se retirou) Vão se foder, rebanho de “carái” educativo! Pão-de-ló (Sorrindo) “Úia”: “Carái educativo”?! Chouriça Essas porra tudo errado e pobre, mas metido a merda… Japinha, Chouriça e Pão-de-ló dão risada. Pão-de-ló O cara tá injuriado! Chouriça Tô mesmo. “Crocodilage”! Eles são tudo falso: (Ridicularizando a fala dos professores) “Cês têm que ter estudo pra ser alguém na vida”! Japinha Só sei que o brinquedinho que eu tenho aqui, esse sim, pode levar o mano a ser alguém na vida, a ter moral - e exigir respeito. Tá ligado?! Pão-de-ló Quanto o Cão tá pedindo? Japinha Duzentos. Pão-de-ló Raspadinha? Japinha (Responde afirmativamente com a cabeça) Te entrega com o tambor cheio. Chouriça Vai ?! Pão-de-ló Guarda ela pra mim. Preciso de tempo, pra “gerar” o “din-din”. Japinha Só garanto até amanhã... Pão-de-ló Me viro. Amanhã eu pego… “Na moral”. Chouriça Güenta o “ferro” logo, “carái”: “pindura”! Japinha É, Lozinho. Pão-de-ló Pô, sério: prefiro gerar a grana antes. Chouriça Maquinado, fica mais fácil descolar um troco. Tá ligado?! Japinha Só! Pão-de-ló De repente. Chouriça Possa crer maluco! Japinha Com um pouco da primeira aula, a gente “se encontramo” no banheiro. Aí, boto a “mina” na tua mão. Pão-de-ló Valeu. Japinha (De saída) ’Bora, Chouriça! Chouriça (Para Pão-de-ló) Aí: Fui! Japinha e Chouriça saem juntos. Pão-de-ló retira-se em outra direção. Mila Deixa eu ver o resultado?! Bombinha (Mostrando o exame para Mila) Deu positivo: dois meses. Mila Ele já sabe? Bombinha Não! Ficou louca? Se “saber”, me faz tomar comprimido - pra “regra” descer! Mila E você vai querer mesmo esse filho? Bombinha Se peguei barriga, Mila, é porque tava escrito que era pra eu ter a criança, né? Mila Você quer ou não quer? Bombinha Ah… Sei não, Mila. Às vez quero, outras vez não. Sei lá... Mila Será que vai ser menino, ou menina? Bombinha Só dá pra saber lá pro sexto mês e, assim mesmo, se o nenê mostrar o pinto ou a “xana” pra telvisão. Mila Quero ter menina. Já sei até o nome que vou dar: Cássia – em homenagem à Cassia Eller. Bombinha É capaz da menina nascer “bolacha”… Com esse nome?! Mila Já pensou? Uma filhota “cremecraker”?! Bombinha Acho que sei porque tu quer ter filha “sapata”: é pra ela não disputar os “hôme” com você. É ou não é? Risos. Mila Por isso também… Eu adoro uma “sapa”. Cê sabe! Bombinha Eu não sei de nada. Me deixa fora dessa! Mila Ah… a “bolachada” tem as manhas de tocar na gente! Sabem fazer uma boa “espuma”... Bombinha É, mas num tem aquele “dedão sem unha” dos “hôme”! Mila gargalha. Mila Dedo sem unha, é dez! (Ri) Bombinha É tudo de bom! Mila Mas os meninos só querem saber de meter, meter, gozar e pronto! Bombinha É porque tu sente mais prazer por fora do que por dentro, Mila. Já eu, não. Eu gosto mais de sentir (Fala um pouco mais baixo, olhando para os lados) o saco “bucetal” cheio das carne de um pinto bem gordo! (Mila sorri. Bomba retoma o volume inicial da voz) Ave Maria! É bom demais! (Mila sorri) Eu gosto tanto, tanto, que olha ai o resultado: “cabei” “panhando” barriga. Mila (Sorrindo) Barriga cê sempre teve, Telma. Não é atoa que te chamam de Bombinha! Bombinha Ô?! Pra güentar uma boa “martelada”, a gente tem que tá bem alimentada! (Mila gargalha) “Não é brinquedo, não”! Mila (Refazendo-se do surto de riso) Não sei como você suporta “comer” aquilo tudo? Chouriça é desmarcado demais! Bombinha E você conhece o pinto dele por acaso? Mila E precisa?! Basta olhar com atenção pro pacote que aquela criatura carrega sob a calça. (Bombinha sorri) E as mãos dele?! E o pé?! Não, amiga, tô fora: é muita areia pra minha “saveiro”! Bombinha Quem ouve cê falando, pensa até que tu é apertada! Mila Mas eu sou. Não sou donzela, mas tenho as carnes duras. Agora, você, Bombinha... Você já não tem mais uma buceta, você tem um “sacolão”! Bombinha gargalha. (Refazendo-se do gargalhar) Ôi! Ôi… Pior que é “mermo”! (Volta a gargalhar) Assumo o “sacolão” n’a boa… (Mudando o tom) Mas, Mila, quem diz que aquela criatura tem só quinze anos?! Num tem esse... Mila É… Idade não é “documento” mêeesmo! Bombinha E ainda dizem que o tamanho da “coisa” não importa?! (Pausa) Nem sei como é que eu “güento”… Mila de Deus, aquilo ali é um jumento! Mila E tu, a jega! Bombinha e Mila gargalham. Bombinha Ôi! Só rindo mesmo… Mas o moleque sabe surrar uma “xana”, viu! E olhe que, de pinto, eu entendo. (Mila sorri) Já conheci de tudo quanto é tamanho e jeito: “bico-de-bule”, “carmem miranda”, “língua-de-sogra”…. (Mila sorri) Ô?! Pois se “desne” os treze ano qu’eu dou. Fiquei mulé muito nova, Mila! Mila (Rindo) “Bico-de-bule”?! Bombinha É… Aqueles que não mostram a cabeça de jeito nenhum - por causa da “firmose”. Mila gargalha. Mila Ah, Bomba, você é uma figura. Quer dizer que é por causa da “firmose”? (Sorri) Bombinha Os Carmem Miranda cê sabe como é, né?! Mila (Ainda sorrindo) Eu não - o único pinto que eu conheci até hoje foi o do André! Bombinha Carmem Miranda é aqueles que “fica” “mostrano” a cabeça. Mila gargalha. Mila (Ainda sorrindo) Criatura, quem foi que lhe ensinou essas coisas? Bombinha Os viado lá da rua. Mila (Sorrindo) Só falta você dizer como é os “língua-de-sogra”? Bombinha Aqueles bem pequenininho, enrugado, que só crescem na hora do tre-lê-lê! Mila gargalha. Mila Ái, ái… Fiquei até com dor na barriga de tanto rir! Bomba, você é comédia. Bombinha Comédia?! De pinto, eu entendo! (Curiosa) Mas fala aí, o do André, é de que tipo? Mila (Sorrindo) “Língua-de-sogra!” (Recompondo-se) Eu só fiquei com ele porque achei que a “coisa” não crescia muito. Bombinha Coitada: era cilada! Mila Ô arrependimento! Sofri, viu. Bombinha Cê tem que ficar esperta, Mila, porque tem uns caixinha-de-surpresa que vou te contar… cada surpresa bôooaa! Risos. Silêncio. Mila (Séria) Mas Telma, se você está com dois meses, e a criança vai nascer daqui a sete… (Contando nos dedos) Março, abril, maio, junho… Cê vai parir em novembro, Bombinha! Bombinha É mesmo. Num tinha pensado nisso. Vai ser de escorpião o coisinha - que nem eu. Mila E se o parto for no dia 14, vai ser teu presente de aniversário! Bombinha (Alisando e olhando a barriga) Acho que ele deve “de gostar” muito de sexo, como a mãe. Mila Ele?! Você nem sabe se vai, ou não, ser menino... Bombinha (Pensativa e séria) Nem sei se vou ter essa criança! Mila Sua mãe tá sabendo? Bombinha Mais ou menos: tá esperando o resultado do exame. Mila E ela, acha o quê? Bombinha Sabe o que foi que ela me disse, Mila? A coisa mais linda: disse que onde comiam dois comem três. Que se eu quisesse ter a criança sozinha ela ia me dar a maior força. Porque, o que é que eu vou esperar do pai – um desocupado, sem estudo, envolvido com droga? Mila Ô, Bomba, você não se “cuidou” não? Bombinha Acidente, Mila: a camisinha estorou. Também, uma tromba daquela me “dano” pessão o tempo todo! Quando eu percebi, foi na hora que ele derramou, porque senti aquela coisa quente tomando conta de tudo! Toca o sinal de início da primeira aula. Mila Odeio esse sinal: parece carro de polícia! Bombinha (Dirigindo-se para a sala de aula) Num fala nada disso pra ninguém, tá? Mila (Acompanhando-a) Imagina?! Mila e Bombinha dirigem-se às suas salas de aula. Segunda movimentação de persnonagens BANHEIRO MASCULINO Guga está terminando de urinar no mictório coletivo. Chouriça entra, coloca-se ao lado dele, saca o pênis semi-erecto da calça e masturba-se. Chouriça (Olhando para as nádegas de Guga) “Isto-dando” muito, CD? Guga (Nervoso com a proximidade de Chouriça) Mais ou menos. Guga sacode e guarda rapidamente o pênis na cueca, fechando o zíper da calça. Chouriça segura-lhe com firmeza um dos punhos, embora continue a tocar o próprio pênis com a outra mão. Chouriça (Detendo Guga) Peraí! (Sensual e ameaçador) Já vai, Cdêzinho?! Guga (Tentando escapar) Que é isso, Chouriça?! Eu não curto essas coisas. Chouriça (Ainda agitando com uma mão o próprio pênis e segurando Guga, pelo punho, com a outra) Só curte o quê, viadinho, livro e estudo é?! Guga (Tentando por fim àquela situação) Eu não sou gay. Chouriça Cê é o quê? “Hôme”?! Guga Sou. Chouriça “Hôme” o quê, “rapá”?! E “hôme” curte lá essas frescura de escola. Guga É que eu preciso estudar: pra ter um bom emprego. Chouriça Cê é viado e não sabe, CD... Guga Não sou viado: sério. Chouriça Tu é gay que’u sei! Guga Para com isso, Chouriça, por favor. Chouriça Cê já viu uma caceta do tamanho da minha? Viu? (Forçando-lhe a cabeça) Vai, olha bem pra ela… Agora responde: Já viu? (Dando-lhe um tapa na cabeça com a mão que estava sobre o pênis, mantendo-o dominado pelo pulso com a outra) Fala “carái”?! Guga Ái meu braço! Não, não. Chouriça Já segurou uma caceta? Guga (Quase chorando) Só a minha. Chouriça (Estapeando-lhe seguidamente) E você tem caceta, “rapá”?! Esse seu pinto aí é caceta, “carái”?! Eu disse caceta: não falei rôla, não! Anda, responde: já segurou uma caceta? Guga (Chouriça dá-lhe mais alguns safanões) Ái, ái… Não! Chouriça (Encostando a mão de Guga em seu pênis) Pega nela, vai. Guga (Com a mão cerrada encostada no pênis de Chouriça) Chouriça, “na moral”, tenho que voltar para a sala. Tô perdendo matéria. Chouriça Segura que eu deixo você ir. Anda, vai: segura! Silêncio. Troca de olhares entre os dois. Guga decide abrir os dedos e segurar mecanicamente o pênis de Chouriça. Chouriça Lisinha! É mão de CDF mesmo: só pega em livro, caderno, caneta… Cê tem mão boa pra caralho, CD! Guga Pronto. Posso ir agora?! Chouriça Você ainda não segurou?! Só botou a mão em cima... Eu quero que você pegue ela com vontade, vai, aperta! (Guga segura-lhe o pênis, pressionando-o) Isso… Agita ela… Assim, assim… Vai, vai, continua… sacode até eu gozar, vai... Mais rápido, mais rápido…(Alto) Mão gostosa de CDF! Chouriça permanece mantendo Guga sob controle. Coloca agora uma de suas mãos por dentro da calça e cueca de Guga, apalpando-lhe as nádegas. Guga (Interrompendo a manipulação do pênis de Chouriça) Minha bunda, não! Chouriça Bundinha dura que você tem, CD! Guga (Tenta evitar que Chouriça toque em suas nádegas, esquivando-se) Pára Chouriça, pára! Chouriça Faz um boquete, vai. Faz, que eu paro de bolinar seu cú. Guga Qual é, Chouriça?! Já peguei, já bati uma pra você. Deixa eu ir. Chouriça (Dando uns safanões em Guga) Vai, “rapá”, ajoelha logo aí! Bota essa porra logo na boca! E não morde?! Se morder lhe encho a cara de porrada, seu viado! Guga abocanha amedrontado o pênis de Chouriça. Chouriça força a cabeça de Guga obrigando-o a engolir todo seu pênis, até quase sufocá-lo. Guga (Tossindo, ofegante, sem ar, regurgitando) É grande! (Sem ar) Muito grossa! (Ofegante) Espera, “na moral”, tô sem ar… Chouriça (Golpeando-o na cabeça) Vai, “carái”: mama essa porra! Se não quiser fazer chupeta por bem, enfio tudo até você morrer sufocado de pica, viado! Vai, mama ela! Guga Tá, tá, tá bom: eu chupo, eu chupo… Deixa eu respirar um pouco?! Chouriça Respira lambendo meu ovo. Anda: Lambe as bolas dela enquanto respira, seu porrinha! Guga atemorizado passa a língua sobre os testículos de Chouriça. Chouriça Delícia de língua! Muito bom… Cê leva jeito pra coisa… Passou o sufôco? Guga responde algo initeligível. Chouriça Bota o ovo todo na boca… Isso… Engole… Chupa meu ovo, viadinho… Agora, o outro… Issahh… Agora mama, vai! Faz uma chupeta bem gostosa na minha caceta… Bom… É isso aí, garotinho… Fica segurando ela com a mão enquanto mama… Assim… Tá gostando?! Guga tenta dizer alguma coisa. Chouriça Tá curtindo a chupeta, né, viadinho?! Aprendeu como se chupa uma caceta?! Responde! Aprendeu? Guga emite som incompreensível. Chouriça Aperta meu saco. Vai, segura minhas bolas... Com a outra mão! Ahhnn… Guga, de olhos cerrados, segue fazendo sexo oral em Chouriça. Eleva instintivamente uma das mãos até o umbigo dele, como se fosse um discreto carinho mas, na verdade, num gesto de súplica para que ele contenha suas intensas flexões pélvicas que o fazem introduzir impiedosamente o pênis em sua boca . A violência e agressividade de Chouriça vão se desfazendo pouco a pouco. Lágrimas descem dos olhos de Guga. Chouriça limpa com alguma delicadeza suas lágrimas e começa a passar as mãos por entre a farta cabeleira loira de Guga, consolando-o. O sêmem de Chouriça, misturado à uma espécie de baba viscosa, escorre pelas laterais do lábio inferior de Guga. Chouriça esfrega o pênis nas faces de Guga. Terceira movimentação de personagens COZINHA Japinha entra carregando Sônia, desfalecida, nos braços. É seguido por Mila e outros alunos. Japinha Acode, dona Vilma: A Sônia “apagou”! Dona Vilma (Assustando-se) Jesus, Maria, José! O que foi que aconteceu?! Mila A gente tava conversando na sala, antes da professora chegar, aí ela foi ficando branca, verde, e caiu dura no chão… Dona Vilma (Pegando uma cadeira) Bota ela sentada aqui! (Para o grupo de curiosos) Pronto gente, volta pra sala, a menina precisa de ar! (Nervosa) Vão logo, anda! (Para Mila) Não deixa ela cair! (Para Japinha enquanto tenta reanimar Sônia que é amparada por Mila) Corre, Japinha, pede uma garrafa de álcool lá no almoxarifado! (Para Mila, sustentando Sônia com as mãos) Fica na porta, Mila, não deixa juntar muita gente, não. (Para Sônia, dando-lhe suaves tapas no rosto e massageando-lhe o pulso) Sônia! Ô, Sônia! Acorda minha filha! Sônia! Mila posiciona-se na porta, impedindo a entrada dos curiosos. Voz em off Quem foi? Mila A Sônia! Voz em off Qual Sônia? Mila Da oitava B. Japinha retorna com a garrafa de álcool. Mila o deixa entrar na cozinha mas impede o acesso dos curiosos que se acotovelam para espiar pela fresta aberta da porta. Japinha (Entregando a garrafa de álcool à Dona Vilma) Aqui, dona Vilma! Dona Vilma (Para Japinha, destampando a garrafa e colocando-a sob o nariz de Sônia, que reaje ao odor do álcool) Fica lá na porta. (Para Mila) Mila, vem cá! Japinha troca de lugar com Mila. Dona Vilma (Para Mila, passando um pouco de álcool nos pulsos de Sônia) Segura ela! Mila (Desatando o sutiã de Sônia) Acho que é bom folgar o sutiã… Dona Vilma (Para Sônia) Sônia! Ô, Sônia! Sônia dá sinais de recuperação. Mila Tá ouvindo, Sônia? Sônia responde afirmativamente com a cabeça, mas ainda com os olhos fechados. Dona Vilma (Para Sônia) Respira fundo, filha. (Sônia atende a Dona Vilma) Isso… Mais uma vez… Sônia abre os olhos mas ainda está tonta. Mila (Para Sônia) Cê tá bem? Dona Vilma O que você está sentindo, “essa menina”? Sônia Mal estar… Voz em off O que foi?! Japinha (Anunciando aos curiosos) Ela já tá bem. Desmaiou. Voz-em-off Deixa eu ver, deixa eu ver! Japinha (Forçando a porta) Num vai ver porra nenhuma! Se manda. Voz-em-off Só um pouquinho, Japa?! Japinha (Chutando alguém) “Casca fora”, “carái”! Empurram a porta da cozinha, abrindo-a com violência. Japinha sai correndo atrás de quem a empurrou. Gritos, risos e correria dos curiosos em fuga perseguidos por Japinha. Dona Vilma (Para Japinha e os curiosos, dirigindo-se à porta) O que é isso gente?! (Fecha a porta, trancando-a por dentro) Tenham dó! (Voltando até Sônia) “Quem-Deus-pade”?! Mila (Pra Sônia) Tá melhor? Sônia responde afirmativamente várias vezes com a cabeça. Dona Vilma (Servindo um copo de café para Sônia) Vou botar um café amargo pra você, ajuda a “espertar”… Sônia (Ainda tonta) ’Brigado, dona Vilma. Dona Vilma (Entregando-lhe um copo com café) Cê tá se alimentando bem “essa menina”? Mila Tá não, dona Vilma: ela só vive no regime, é “modelo”. Sônia toma o café. Dona Vilma Modelo?! Mila De passarela. Dona Vilma E pra ser modelo precisa passar fome? Cruz-credo! Sônia começa a chorar. Dona Vilma toma o copo de café de suas mãos antes que ela o derrube. Mila O que é que cê tá sentindo, Sônia? Fala criatura. Sônia Dor… Dona Vilma Onde que dói, filha? Sônia (Mostrando o estômago) Aqui… Mila (Para Dona Vilma enquanto Sônia continua chorando) Será úlcera?! Dona Vilma Misericórdia! A menina com úlcera e eu dei café… Mila É úlcera, Sônia? Sônia Não. Dona Vilma Tem certeza, “essa menina”? Sônia Tenho. Dona Vilma (Comovida) É fraqueza, né, minha filha? Sônia responde afirmativamente com a cabeça. Dona Vilma (Para Mila) Ô Mila, vai pra sala… Num fica perdendo matéria não. Avisa que ela tá melhor. Mila responde rápida e afirmativamente com a cabeça para Dona Vilma. Mila (Para Sônia, pasando-lhe carinhosamente a mão pelos cabelos) Cê quer q’ueu fique com você? Se quiser, eu fico… Sônia Precisa não. Pode ir, Mila. Daqui um pouco eu vou. Mila (Dando um beijo carinhoso em uma das faces de Dona Vilma) Tchau, fôfa. Dona Vilma (Dando-lhe pressa) Anda Mila: vá logo pra sala, vai! Mila (Para Dona Vilma, ao deixar a cozinha) Feche a porta, dona Vilma, tem muito epírito santo de olho aqui! Mila sai. Dona Vilma passa a chave na porta. Dona Vilma (Providenciando um lanche para Sônia) Olha, eu trouxe pãozinho. Vou passar manteiga, esquentar… (Lembrando-se) E tem também um resto de leite em pó aqui … (Preparando o lanche) Há quanto tempo você não se alimenta, filha? Sônia Uns dois dias. Dona Vilma (Ocupada com o lanche) Virgem santíssima! Pra quê tanto sofrimento? Tudo isso só pra ser modelo? Sônia Minha mãe tá desempregada, dona Vilma… Dona Vilma Misericórdia! Sônia A comida lá em casa acabou antes de ontem. Dona Vilma Você só está com a merenda da escola? Sônia Ás vezes, nem a merenda, dona Vilma. Dona Vilma Por que, filha? A merenda é boa. Sônia Eu sei. Mas quem come merenda, eles “fala” qu’é pobre. Dona Vilma (Servindo o lanche para Sônia) Mas você não pode ficar sem se alimentar “essa menina”! Sônia É que eu tenho vergonha, dona Vilma… Dona Vilma (Enquanto Sônia se alimenta) Esses jovens de hoje… Tudo cheio de vergonha pra umas coisas e sem vergonha nenhuma pra outras… “Rái”, ái… Disconjuro… Come devagar, viu? Pra não passar mal… E para com essa “bestage” de ter vergonha da minha merenda. Sabe, “essa menina”, a gente prepara a comida aqui com muito gosto. Não é nenhum restaurante granfino, mas é tudo muito limpo, viu… Às “vez”, eu fico “mordida”, revoltada mesmo, quando cês fazem guerra de pão. Tanta gente sem ter nem um biscoito pra roer… Depois ficam aí, desmaiando de fome! Sônia Posso pedir uma coisa?! Dona Vilma (Desconfiada) Depende… Tá se sentindo melhor? Sônia (Responde afirmativamente com a cabeça) Não fala pra ninguém o que eu contei. Dona Vilma Mas, “essa menina”?! Sônia Meu nome é Sônia, dona Vilma. Dona Vilma Eu sei. Ô “dona” Sônia… Sabe de uma coisa?! Eu não concordo com isso não – com esse fingimento, de querer ser uma coisa que a gente não é. Sônia Por favor, por favor, dona Vilma?! Dona Vilma Tá. Tá bom: eu num conto, “sínha” modelo! Sônia Nem pra Mila! Dona Vilma Mas a Mila é sua amiga! Sônia Promete?! Dona Vilma Só se você também me prometer uma coisa... Sônia (Limpando os lábios com as mãos após terminar o lanche) Eu prometo, diga. Dona Vilma Todo dia, de hoje em diante, seja lá o que for que tenha na merenda, você vai comer! Sônia (Entregando-lhe o copo vazio) Obrigado, dona Vilma. Muito obrigado! (Recuperada e vaidosa) Saiu meu batom? Dona Vilma, com o copo vazio na mão, olha para Sônia, meneando a cabeça. Quarta movimentação de persnonagens MURO DOS FUNDOS Mila em pé, Zabelão e Pão-de-ló sentados. Zabelão (Levantando-se decidida, com uma mão na cabeça, em uma espécie de forjado e excessivo desespero) Puta que pariu! Eu vou lá: tenho que ver minha princesa! Mila (Contendo-a, dramática, alimentando o jogo teatral de Zabelão) Não, Isabela, fica aqui. (Muito próxima a ela, roçando os seios nos seios de Zabelão) É melhor. (Zabelão olha com desejo para os seios de Mila) Ela já tá bem. Pão-de-ló Quem deu socorro? Mila Japinha, e eu. Zabelão Buceta! Já disse que não tem nada a ver ficar sem comer… Ela não me ouve. (Para Pão-de-ló) Parece uma psicose, “carái”... Mila (Subitamente) Eu vou voltar pra aula. (Olhando para Zabelão) Eu digo pra ela que cê tá aqui fora. Zabelão Valeu, Mila. ‘Brigado por acudir minha “mulé”. Mila mostra os dentes em um sorriso amarelo e silencioso, retirando-se em seguida. Pão-de-ló Quer fumar, Zabelão? Pra acalmar as idéias… Zabelão Cê tem? Pão-de-ló Uma “ponta”, mas é “da boa”… Zabelão Tá esperando o quê, mano? “Fogo na Babilônia”! Pão-de-ló (Sacando uma ponta de cigarro de maconha do bolso) Vê se rola algum “sujeira”… Zabelão confere se alguém se aproxima. Zabelão Tá limpo! Pão-de-ló lambe a “ponta”, acendendo-a com um isqueiro. Puxa a fumaça assobiando. Zabelão É, Lozinho… eu tô sabendo, viu?! Pão-de-ló (Passando-lhe o baseado, em tom anasalado) Sabendo o quê? Zabelão (Assobia também ao puxar a fumaça, estalando estridente e consecutivamente a língua no céu-da-boca) Do seu “trabalho”… Pão-de-ló De geografia? Zabelão (Irônica) É… de “geografia” do Arouche! Pão-de-ló (Recebendo o cigarro de Zabelão, sério) O quê cê tá sabendo? Zabelão Tudo. Tá ligado?! Pão-de-ló (Após puxar a fumaça) Qu’eu vou lá? Zabelão Tem um camarada meu que “saiu” com você. Pão-de-ló (Passando-lhe o cigarro) Nas baladas? (Aperta o nariz para manter a fumaça dentro dos pulmões) Zabelão (Puxando a fumaça) Uma “biba” conhecida minha que fez “programa” com você. Pão-de-ló tem um acesso de tosse. Zabelão Relaxa, cara. (Passando-lhe a “ponta”) Não vou te entregar pra galera, não. Pão-de-ló É só bico, mesmo, Zabelão. Na “moral”: (Puxando fumaça) só vou com os caras quando tô quebrado… Cê sabe, o trampo, lá na padaria de pai, não rende: é trabalho escravo, rei! Zabelão (Com sarcasmo) Pobre menino rico… Pão-de-ló É sério. (Passando-lhe o baseado) O coroa é mão de vaca. Tá ligado? Zabelão (Puxando fumaça) Quer dizer então que o “véi” galego da cabeça-branca é bôca-de-sífu… Pão-de-ló (Anasaladamente) Não é o quê, meu camarada?! Zabelão (Devolvendo-lhe a ponta do cigarro de maconha quase no fim) Sustentar vício né fácil não, mano: “Farinha” tá caro! Pão-de-ló Só… (Referindo-se à “ponta”) Vou “matar”! (Fumando o restante do cigarro) Morreu… Zabelão Quem diria… Lozinho, michê?! Pão-de-ló Porra, Zabelão, qual é?! Vai queimar meu filme? Zabelão Se a polícia te pega, cê tá fodido sacana… De menor “fazendo pista”?! Pão-de-ló Os “rôubo-cops” de lá já me conhecem. Tenho RG “de maior”. Zabelão Carteira de identidade “esquentada”?! “Úia”: Falsidade ideológica do cara! Pão-de-ló Meu lance é grana, Zabelão: din-din. Sacou?! Zabelão Só assim eu descobria qual era mesmo a sua tal “mina” lá do centro da cidade - que você vivia falando tanto! Pão-de-ló Quem foi o viado que me entregou? Zabelão Tintinho. Pão-de-ló Tintinho?! Zabelão Amiltinho... Ele tem um pálio azul. Pão-de-ló Tô sabendo. Zabelão O cara né fraco, não: advogado, sacana! Pão-de-ló De onde cê conhece ele? Zabelão Da night… (Advertindo-o) Se cuida, “carái”: tá cheio de aids por aí! Pão-de-ló Só transo com camisinha. Zabelão E se a camisinha estourar? A biba disse que foi ela que te comeu, Lozinho! Pão-de-ló (Irado) Porra nenhuma! Vou encher aquele viado de porrada. Deixa eu encontrar com ele! Zabelão (Provocando Pão-de-ló) Não discrimino não, Lozinho: o cú é seu, cê dá ele pra quem você quiser! Pão-de-ló Que onda errada é essa, “véi”? Resolveu curtir com a minha cara, é? Zabelão (Sacaneando-o) Agora cê tá aqui, ó, (Mostrando a palma da mão) na minha mão. Pão-de-ló Olha a viagem do cara,?! Aí… Cai na real “maluco”. Zabelão (Abraçando-o) Na moral, não esquenta não: cê sabe que eu te considero pra porra. (Provocando-o) Mas se você quiser soltar o redondo pra mim, eu não dispenso não! (Pão-de-ló pega um pedregulho no chão. Zabelão sai correndo) Pão-de-ló (Jogando o pedregulho na direção de Zabelão) Vá “Fila-da-puta”, escrota! Vou meter minha pica nessa sua buceta apertada pra você parar de se fazer de macho, bolacha! Vai procurar sua turma franchona do “carái”! Quinta movimentação de personagens CORREDOR Mila Guga, cê tá branco?! Tudo bem? Guga (Limpando a boca, trêmulo) Tudo. Mila Cê tá tremendo! Guga (Sem convicção, cuspindo a seguir) É que eu vomitei. Mila Tem uma coisa grudada aqui no seu cabelo… Eca! Catarro, Guga! Guga retira-se dando a entender que vai se limpar. Bombinha Esse menino parece que não bate bem do juizo. Mila É estudo demais! Sônia Todo CDF é assim mesmo, estranho. Bombinha Ô meu Deus! Que desperdício… Sônia Num sei pra quê tanto estudo. Mila Hoje em dia, minha filha, até pra ser gari tão pedindo o fundamental completo! Sônia (Contestando Mila) Pra ser modelo não precisa nada disso! Mila O que?! Modelo tem que falar, pelo menos, inglês, francês e japonês… Sônia E pra falar língua estrangeira precisa do fundamental? Bombinha (Referindo-se uma vez mais à Guga) Hum… Cala-te boca… Esse “jeitinho” dele não me engana! Sônia Agora, que ele é um gato?! Bombinha Uma “gata”, né?! Mila Que é isso?! Guga é virgem. Bombinha Só se for donzelo de “xana”, porque de pinto… Hum?! Mila Que absurdo! Sônia (Jogando a agenda no chão, teatralmente afetada) Não acredito?! Bombinha Catarro no cabelo?! Aquilo, que eu saiba, tem outro nome… Mila Se era esperma, então devia ser dele próprio. Sônia recolhe a agenda que jogou no chão. Bombinha Vai esporrar longe assim na casa do… Olhe, criatura, me poupe?! Entra Andressa. Andressa (Batendo palmas e se sacodindo toda, afetadamente) O que é qu’essas rachadas tão fazendo no meu ponto?! Sônia (Explicitamente falsa) Andressa, querida, cê tá boa? Andressa (Para Sônia, cumprimentando-a seguidamente com beijinhos na face) É a que já nasceu mulher! É a que não precisou ser operada! Mila, Bombinha e Sônia sorriem. Mila (Respondendo a pergunta de Andressa, torcendo a boca) Aula vaga, pra variar... Andressa Ah, bom! Porque cês tão sabendo de quem é o corredor. Preciso lembrar? Bombinha Precisa, não viado. Tu fica com o corredor que a gente fica com os “hôme” que passam nele! Andressa Abusada?! (Excessivamente afetado, sacando uma navalha) Olha aqui! Tá vendo? Não vêm não, heim “mulé”, não vem q’eu lhe faço outra buceta na cara! (Risos) Cê não me provoque, queridinha, (Com ironia) porque meu tom não é rosa bebê, é rosa choque! (Guarda a navalha, após olhar desconfiado para os lados) Risos. Mila E vocês, André, “tão” sem aula também? Andressa (Torcendo a boca) Não. Vera Guarda-pó tá na sala. (Colocando uma das mãos na testa) Gente, o que é aquilo?! A criatura só sabe rabiscar todo o quadro e mandar a galera copiar... Ela rabisca, rabisca e os besta copia, copia… Me poupe?! Cópia por cópia, minha filha, eu tiro xerox depois - dos cdf da turma, é claro! Imagina se eu, bonita, vou gastar meu bom carão em sala de aula com a Vera Guarda-pó?! Nem morta, queridinha! Sônia Bombinha tá dizendo que o Guga é gay! Andressa Aquilo alí é um projeto de bicha que não deu certo! Mila (Para Bombinha) Tá vendo?! Bombinha (Para Andressa, contestando-lhe a afirmação) Guga, não é viado?! Andressa Aquilo é um egum descompreendido: se ele é gay, nem ele mesmo tá sabendo! Mila O Guga é muito ingênuo, gente. Sônia Ele me aguarde: eu adoro perverter um anjinho! Andressa Aliás, só a senhora, não! (Dirigindo-se à Telma) Né mesmo, “dona” Telma Bombinha Papa-anjo? Bombinha Viado, eu prefiro os “diabinho”! Você sabe. Andressa Só que os “brazinha” quando chegam no seu “inferno”, lindinha, (Batendo nas nádegas) já fizeram escola no “purgatório” da de cá! (Gargalha teatralmente com uma das mãos na cintura, sacolejando o ombro como se fosse uma poba-gira) Rá, rái! Risos. Sônia Arrasou! Andressa Me empresta o batom? Mila (Para Andressa) Pra quê cê quer batom, André?! Andressa É que o veneno escorreu… Borrou a maquiagem! Mila leva a mão à boca escondendo o riso. Bombinha fica séria. Sônia (Entregando-lhe o batom) Tá aqui. Bombinha (Para Sônia, enquanto Adressa passa o batom nos lábios) Não sei como você tem coragem de dar seu batom pra passar na “boca-de-chupeta” dessa bicha?! Sônia Pois se foi ela quem me deu de presente o batom?! Andressa Tá “veno” rachada?! Perdeu a oportunidade de ficar de boca fechada. (Devolvendo o batom a Sônia) Não precisei nem te dar resposta! Bombinha, visivelmente contrariada, vira o rosto de lado, evitando olhar para Andressa. Sônia sorri. Mila disfarça o riso. Sônia (Para Bombinha, guardando o batom) Em boca fechada, amiga, não entra mosquito. Andressa (Para Sônia e Mila) Vamo lá na no refeitório ver o ensaio da dança?! Sônia ‘Bora! (Para Mila e Bombinha) Vamo Mila?! (Mila olha para Bombinha) Vamo Bomba?! Andressa Tem uns bofes maravilhosos no grupo. Mila (Referindo-se a ela mesma e à Bombinha) Depois a gente vai, n’é Bomba? Sônia (Para Andressa, mexendo no cabelo) Como é que eu estou? Andressa (Arrumando rápida e profissionalmente o cabelo de Sônia) Deixa eu ver, deixa eu ver: Pronto: agora sim. (Repentinamente, levantando barrocamente um dos braços com o dedo indicador em riste) Ensaio de entrada arrasante no refeitório! Andressa imita habilmente, com a voz, música e batidas eletrônicas. Sônia faz caras e bocas, defilando para Andressa. Bombinha torce a boca, enciumada. Mila sorri. Andressa (Batendo palmas ritmadamente) Abalou Itaquera! (De saída com Sônia) Aprendeu rápido, heim, “fia”? (Falando para Sônia por entre os dentes, ao passar por ela, num sorriso forçado) Amiga, cê precisa passar lá no salão urgente pra retocar o interlace. Abafe! Sônia e Andressa se retiram desfilando. Sônia atrás. Andressa na frente, “gerando” o som do desfile. Bombinha faz careta após Andressa passar por ela. Ouvem-se assobios e gritos eufóricos em off no corredor. Sexta movimentação de personagens BANHEIRO MASCULINO Japinha, Chouriça e Pão-de-ló encontram-se, todos, dentro de uma mesma cabine de vaso sanitário. Japinha (Terminando de urinar no vaso) Vai gerar mesmo a grana amanhã, né? Pão-de-ló Certeza, mano. Japinha (Japinha tenta acionar várias vezes a descarga, mas ela não funciona: a caixa está seca. Com raiva, parte o fio do puxador) Essa porra só vive sem água! (Para Chouriça) Cê tá “de prova” do negócio, né Chôra? Chouriça Só… Japinha (Sacando com excitação a arma, ameaçador, para em seguida passá-la a Pão-de-ló) Feito. Segura: é sua. Pão-de-ló pega a arma e confere o tambor. Japinha (Deixando a cabine) Não falei que o “tênis” vinha “recheado”? Chouriça (Adverte Pão-de-ló, seguindo Japinha) Maior responsa, tá ligado?! Pão-de-ló (Permanecendo na cabine) Tô sabendo. Japinha Vamo nessa, Chôra, a mercadoria tá entregue. Chouriça (Para Pão-de-ló) A gente se “bate” amanhã, aqui mesmo, nessa hora. Valeu?! Pão-de-ló (Guardando a arma dentro da calça) Valeu. Chouriça e Japinha se despedem de Pão-de-ló com toques-senha de mão e deixam o banheiro. Pão-de-ló, com os olhos muito vermelhos, sozinho, volta a examinar a arma. Estufa o peito e experimenta várias posturas com o revólver, “viajando”. Sente vontade de defecar. Sem saber onde deixar a arma, esconde-a dentro da caixa de descarga antes de folgar as calças e acocorar-se com os pés sobre as bordas do vaso sanitário. Sétima movimentação de personagens REFEITÓRIO Música Hip-Hop. Parte de uma sequência de street-dance. O grupo de dançarinos da escola está ensaiando uma coreografia. Bolsas e mochilas espalhadas pelo chão. Após certo tempo de exibição, um dos solistas cai durante sua virtuosa performance acrobática. Solista Na moral, volta aí. A música é interrompida. Burburinho. Os bailarinos saem de formação. Uns descansam. Alguns fazem alongamento. Outros, bebem água e energético enquanto conversam. Oitava movimentação de personagens BANHEIRO MASCULINO Guga entra no sanitário. Tenta localizar o resto de esperma no cabelo, que fora detectado por Mila, em frente ao espelho. Abre a torneira da pia, mas não sai água. Olha para os lado tentando encontrar alguma solução para a limpeza do cabelo. Vai até uma das cabines com vaso sanitário. Movimenta bruscamente a cabeça, fungando, incomodado pelo mal cheiro. Decide equilibrar-se no vaso, objetivando conseguir um pouco de água na caixa de descarga suspensa, para limpar o cabelo. Descobre a arma que foi deixada ali por Pão-de-ló. A música hip-hop, coreografada pelo grupo de dança da escola, volta a ser ouvida, desta vez em BG, quando Guga encontra a arma. Guga desce do vaso com a arma na mão, observando-a, pensativo. O volume da música em BG sobe pouco a pouco. Esconde súbitamente a arma dentro da calça, na cueca, encobrindo-a com a camisa; retira o resto de esperma no cabelo com as mãos, em frente ao espelho, esfregando-as em seguida nas paredes e na própria calça. Cheira as mãos. Deixa em seguida, com rapidez, o banheiro masculino. Nona movimentação de personagens QUADRA POLIESPORTIVA Titia apita um jogo de futebol, abraçado a uma bola. Em off, som de equipes masculinas adversárias (boladas em traves de ferro, palavrões, pisadas fortes, instruções de jogadores a seus colegas de equipe etc). Pão-de-ló espera uma oportunidade para se dirigir a Titia. Titia finalmente consulta o relógio e apita, encerrando a partida. Ouve-se, ainda em off, a comemoração do time vencedor, jogadores ofegantes, reclamações a companheiros de equipe etc. Pão-de-ló Professor! Titia (Sem olhar pra ele, movimentando-se) Diga. (Supostamente para alguns alunos que estavam a jogar) Hoje fluiu! Voz em off Valeu os toques, Titia! Pão-de-ló Vim trazer a lista. Titia (Um pouco ofegante) Definitiva? Pão-de-ló (Põe a mão no bolso e percebe que esqueceu a arma no banheiro. Coloca uma das mãos na cabeça em sinal de desespero) Puta-que-pariu! Titia Esqueceu? Pão-de-ló Não. Outro lance aí. (Saca um papel dobrado do bolso, entrega-o à Titia e se retira apressado) Tá aqui. Titia Tudo bem? Pão-de-ló (Praticamente fora de cena) É que eu lembrei… Titia menea a cabeça e desdobra o papel que lhe foi entregue por Pão-de-ló. Décima movimentação de personagens CORREDOR Chouriça está abraçado a Bombinha. Ela, de costas para ele, faz-lhe carinho num dos braços. Ao lado, encontram-se Japinha e Mila. Mila E vocês já sabem quando vai ser o primeiro jogo? Japinha Lozinho que ficou de pegar a tabela. (Para Mila e Bombinha) Cês vão tá lá, torcendo pra gente, né? Bombinha Certeza! Cê acha que eu vou deixar meu negão, sozinho, só de calção, de bandeja, pras “vadia” da torcida?! Chouriça Ichiii… Cê é minha dona agora, é? Bombinha (Beliscando-o) Cê sabe que é meu, Chôra. Japinha Só se for seu e de toda a “muiezada”! Risos. Chouriça (Reclamando do beliscão, sedutoramente) Que viagem é essa, minha gostosa? Mila Vocês dois formam um casal lindo! Japinha Aí: cê “casou” e nem contou pros mano, véi?! Chouriça Até você, Japa! Porra?! Mila (Trocando olhares cúmplices com Bombinha) Acho que um filho de vocês deve sair bem bonitinho… Japinha Chôra, pai?! É brincadeira… Chouriça (Demonstrando alguma preocupação) “Rapá”, num brinque com essas coisa não… Na moral, véi, filho é responsa! Mila Cê não pensa n’algum dia ter filho não, Chôra? Chouriça “Rapá”, nunca pensei nisso não. Mila (Para Japinha) E você, Japinha? Japinha Penso muito. (Para Mila, sedutoramente) Cê num qué “fazê” um comigo, não? Chouriça (Para Japinha, sorrindo) Aí: intimou legal! Toque aqui. (Tocam-se pelas palmas da mão) Mandou bem, mandou bem! Mila (Dando um tapa carinhoso em Japinha) Fala sério, Japa! Japinha (Sedutor) Ai… Bate mais q’eu gosto… Bombinha (Cantarolando) Um tapinha não dói, um tapinha não dói… Mila (Para Japinha, demonstrando teatralmente alguma excitação) Cê gosta de apanhar na cama é? Japinha (Provocante) Eu deixo você ficar em cima d’eu e me dar aquela surra… Risos, palmas e assobios por parte de Chouriça e Bombinha. Bombinha Se eu fosse você, Mila, ia com Japinha – só pra ver qual é “de mesmo”! Mila E se for “língua-de-sogra” de novo? Bombinha sorri. Japinha (Sem entender) Língua de quê? Chouriça (Para Bombinha, sério, cismado) Que papo é esse, “véi”? Mila Besteira, Chôra. Bombinha (Seca) Coisa de “mulé”. Tá ligado? Japinha (Para Mila, com alguma sensualidade) Quando cê tiver afim, é só me dar um toque. Mila (Puxando-lhe o gorro e ajeitando-lhe o cabelo, encerrando o assunto habilmente) Tô sabendo. Chouriça (Para Japinha) A gente num tem que vê aquela parada lá?! Japinha Que hora é essa?! Mila (Consultando o relógio de pulso) Quinze pras nove. Japinha Vamo nessa, Chôra?! Chouriça dá um “selinho” em Bombinha. Mila devolve o gorro a Japinha. Chouriça Fui! Japinha (Beijando Mila na face) Vou ficar na vontade, valeu?! Chouriça e Japinha saem rapidamente, murmurando entre si alguma coisa initeligível. Mila (Para Bombinha, baixo) Eu tentei… Bombinha Eu vi. Mila Japinha estragou tudo! Mila e Bombinha retiram-se, lentamente, no sentido oposto à saída de Chouriça e Japinha. Bombinha Cê acha que ele percebeu? Mila Chôra? Bombinha Sim. Mila Não. Acho que não. Mas Japinha ficou com a pulga atrás da orelha… Bombinha Será? Mila Ele é muito esperto. Pega as coisas no ar… Décima primeira movimentação de personagens BANHEIRO MASCULINO Pão-de-ló adentra o sanitário. Vai até a cabine na qual escondeu a arma. Sobe no vaso, vasculha a caixa da descarga suspensa. Entra em desespero, arranca-a, sacodindo-a repetidamente a seguir. Joga a caixa plástica da descarga no chão. Põe as mãos na cabeça. Anda de um lado a outro desorientado. Pão-de-ló (Chutando a caixa da descarga, com violência, como se fosse uma bola) Porra! Pão-de-ló deixa o sanitário enfurecido. Décima segunda movimentação de personagens MURO DOS FUNDOS Andressa e Sônia em pé, um em frente ao outro. Sônia empunha um espelho de bolso, mirando-se nele. Andressa maquila Sônia. O batom é usado como sombra e blush. Andressa Pronto: está ótima! Só tá faltando mesmo um pouco de pó. Pó é o arremate final de qualquer maquiagem - pra segurar o carão, entende?! Sônia Izinha tá demorando muito, cê não acha? Andressa Aquela sapa que não se atreva a sumir com a minha grana. Eu vou até o “quinto dos inferno” atrás dela! Sônia Relaxe, criatura! Andressa Esse lance de farinha, prefiro eu mesmo “gerar”. (Pondo em dúvida a honestidade de Zabelão) Pó é tentação, mona! Sônia (Avistando Zabelão) Ó ela aí… Entra Zabelão. Andressa Rolou? Zabelão Com certeza… Andressa Deixa eu ver. Zabelão (Tirando um papel da calça) Calma. viado, tá achando que eu ia lhe dar “bolo”? (Entregando-lhe a droga) Meu lance né farinha não, “véi”. (Roçando o corpo no corpo de Sônia) Meu vício é só esse aqui – além de maconha e “cachaça”, é claro. Andressa (Conferindo a quantidade de droga) Ah, bom, pensei que cê ia negar que é chegada nas “etába” e nos “otim-fum-fum”?! (Para Sônia) Amiga, tá bem servidíssima a parada. Limpa o espelho pra gente “bater” logo umas quatro carreira e ficar assim tipo rapidamente “bem” - e voltar correndinho pra ver os “moleque” da dança. Sônia limpa o espelho de bolso com a camisa. Andressa despeja um pouco da droga, “entocando” o restante na parte traseira da calça. Saca sua navalha e, com a lâmina, quebra as pedrinhas de cocaína transformando-as em pó. Zabelão e Sônia beijam-se na boca ardentemente. Zabelão (Para Sônia, após beijá-la, segurando-a pelo queixo) Só fiz esse avião por causa de você, princesa… Andressa (Referindo-se à droga) Preparadíssima! (Para Sônia) Segura aqui, Soninha, pr’eu fazer um canudo pra gente cheirar?! (Passando-lhe o espelho com as quatro carreiras) Sônia obedece-lhe prontamente. Andressa (Para Zabelão, enquanto improvisa um canudo com uma nota de cinco reais) Vai, Zabelão, faz barreira aí pro vento não espalhar a “purpurina”! Andressa aspira rapidamente uma carreira. Olha para cima, tapando a narina usada com um dos dedos. Bate o canudo sobre o espelho para aproveitar os resíduos da droga que ficaram no interior do rolinho feito com a nota de cinco. Passa o canudo pra Sônia e coleta, com a ponta do dedo, as sobras da droga, passando-o em seguida nos dentes. Andressa (Deslumbrada, cantarola uma canção de Adriana Calcanhoto gravada por Betânia) “Tá tudo aceso em mim, tá tudo assim tão claro, tá tudo brilhando em mim!”. Essa é pra vocês duas! Mudança de luz. Andressa caracteriza-se rapidamente como Betânia e a dubla em Ambar, canção de Adriana Calcanhoto, gravada no cd Ambar. Zabelão e Sônia assistem sua performance trocando carinhos. Encerrada a performance, Sônia aspira uma das carreiras, repetindo, com pouquíssima variação, os procedimentos de Andressa. Andressa desfaz-se da caracterização de Maria Betânia Andressa (Para Zabelão) Canal maravilhoso o seu! Quem é o barão? Zabelão Gostou? Andressa Muuuuito! Sônia passa o canudo para Andressa. Andressa (Recebendo o canudo) Seu “marido” num vai mesmo querer cheirar? Sônia Izinha não curte pó não. A dela é só canabis - e álcool! Andressa (Cheirando outra carreira) Pensei que cê dava uns teco de vez em quando, Zabelão? Zabelão (Acariciando os cabelos de Sônia) Não. É muita adrenalina pra meu coraçãozinho de leão… (Para Sônia) Né, “mô”? Sônia responde-lhe com novo beijo de língua na boca. Andressa (Estendendo-lhe o canudo) Vai querer mais uma, Soninha? Sônia (Interrompendo o beijo) Lógico! (Pegando o canudo das mãos de Andressa) Cê sabe qu’eu não dispenso um “flash”, querida! Sônia cheira a última carreira. Bate o canudo no espelho e passa o dedo sobre os restos, levando-os à boca para os esfregar sobre os dentes. Limpa o espelho com a blusa. Retoca o batom. Zabelão (Advertindo-os) Pó é cilada, “véi”… Andressa Mas pra quem precisa controlar o apetite é “uma”: álcool e fumo “dá” fome. Sônia Quando eu cheiro, esqueço a fome, passa logo a vontade de comer. Aliás, por isso que eu curto pó. Andressa (Irônica) Só por isso, bonita? Sônia (Afetada e teatralmente eufórica) Por isso também, amiga! Andressa (Tomando Sônia pelo braço) ‘Bora, mona, vamo “zuar” porque cheirar e ficar parado é o Ó! Sônia (Para Zabelão, retirando-se de braço dado com Andressa ) Na saída a gente se vê! Zabelão senta-se e coça a cabeça, máscula, com a palma da mão. Andressa e Sônia saem sorridentes. Zabelão prepara um cigarro de maconha. Décima terceira movimentação de personagens BANHEIRO MASCULINO Japinha, Pão-de-ló e Chouriça vasculham o sanitário à procura da arma. Chouriça (Para Pão-de-ló) Vacilão! Japinha (Também dirigindo-se a Pão-de-ló) Porra, Lozinho, cê dá uma baforada e fica logo de bobeira, “véi”?! Se liga “mané”! Pão-de-ló Maior Prejú… Tô fodido! (Quebrando a pia, irado) Porra! Chouriça Aqui, num tá! Japinha Cataram… Pão-de-ló Será que foi parar na diretoria? Chouriça Se tivesse lá a gente já tava sabendo. Tá ligado? Pão-de-ló Isso não é pegadinha, não?! É? Japinha Pegadinha?! Pão-de-ló Cês esconderam a “máquina” só pra curtir comigo. Chouriça Entrou alguém - quando cê tava cagando? Pão-de-ló Não. Japinha Cê viu quem entrou - na hora que cê saiu? Pão-de-ló Tisc, tisc… Chouriça Cê num tá “armando” pra nós, não? Tá Lozinho?! Japinha Se tá pensando que num vai ter que pagar por ela… Pão-de-ló Qual é?! Fechei o negócio. Vou pagar. Dei minha palavra, porra. Japinha Certeza ter deixado o “ferro” aqui? Chouriça Onde cê foi, depois de cagar? Pão-de-ló Na quadra, entregar a escalação do time pro Titia. Japinha Vamo lá de novo! De repente ela caiu nos mato em volta? Chouriça Possa crer! Pão-de-ló (De saída com Japinha) Cê num vem? Chouriça Vou dar um mijão e tô indo! Japinha e Pão-de-ló deixam o sanitário. Japinha segue repreendendo a falta de atenção de Pão-de-ló. Ouve-se o som do jato de mijo demorado de Chouriça no vaso sanitário. Ouve-se em BG a música do ensaio do grupo de dança paralelamente à entrada silenciosa de Guga no banheiro. Guga engatilha e segura a arma com as duas mãos, mirando-a na direção de Chouriça. Chouriça sacode o pênis, guarda-o na calça, sem perceber a presença de Guga. Vira-se e então o vê. Chouriça (Fechando o zíper) Qual é CD?! (Apalpando o próprio pênis) Gostou e tá querendo mais? Guga Cala a boca, seu… maníaco sexual! Chouriça (Movendo-se na direção de Guga, tentando acalmá-lo) Tá “nervosa”? Guga Não se mova! (Chouriça pára e levanta ambas as mãos até a altura dos ombros) Chouriça (Desafiando-o) Vai ter coragem de me pipocar, viadinho? Guga Não sou gay, já disse! Você me obrigou a fazer aquilo. Você que é viado - e não admite. Quem gosta de fazer sexo com homens é você. Assuma… Se tem algum homossexual, neste banheiro fétido, é você. Você! Chouriça parte irado para cima dele. A música em BG ganha volume. Guga descarrega a arma em Chouriça, defendendo-se antecipadamente do seu ataque. Chouriça se ampara nas paredes da cabine. Chouriça (Desesperado, chorando, conferindo os ferimentos à bala) Cê me furou, “fila-da-puta”! Me furou… Guga permanece de arma em punho, paralizado, disparando automaticamente o gatilho mesmo após o término da munição. Chouriça cai ao lado do vaso sanitário. Tenta inutilmente, apoiando-se no vaso, levantar. Tomba finalmente com a cabeça pendente dentro da bacia higiênica. Guga abaixa os braços lentamente até ficar com eles paralelos ao corpo. Guga (Vingado) Eu te disse que não era viado… (Começa a chorar, arrependido do crime que cometeu) Eu não sou gay! Tá ouvindo?! (Aos prantos) Responde?! (Repetindo reiteradamente) Eu não sou viado! Não sou gay! (Cai ao chão, de joelhos) Não sou… Guga larga a arma, deixando-a no chão. Abraça-se a si mesmo em choro convulsivo. Põe as mãos na nuca, apertando a cabeça com os cotovelos. Chora. Para de chorar aos poucos. Enxuga as lágrimas com a camisa. Pega novamente a arma através do tecido da camisa, limpando nela suas digitais. Assoa o nariz, recompondo-se. Deixa a arma no chão. Levanta-se decidido e, já à porta do banheiro, olha desconfiado para ambos os lados. Retira-se furtivamente. A música do ensaio do grupo de dança continua tocando cada vez mais alto. A luz desce em resistência ficando apenas um foco vermelho sobre o cadáver de Chouriça. Os bailarinos vão tomando suas posições. A street-dance é finalmente executada, impecavelmente, com iluminação apropriada, até o término de toda a música. Escuro. Apenas o foco sobre o corpo de Chouriça e a luz de uma lanterna giratória de carro de polícia que incide insistentemente sobre o palco. Concentração e rumor de curiosos à porta do banheiro. Ouve-se, em off, um diálogo entre a rádio-patrulha e a central de polícia, que se refere ao registro de homicídio no interior de uma escola pública da periferia urbana de São Paulo. Escuro total. Proposta para caracterização das personagens: LudMILA – Adolescente de 14 anos, pele clara, cabelos castanhos lisos de tamanho médio, usa óculos de grau, relógio de pulso e aparelho nos dentes, aluna da 7ª A. PÃO-DE-LÓ – Adolescente de 16 anos, pele clara, usa invariavelmente boné e brinco em ambas orelhas, aluno da 8ª B. CHOURIÇA – Adolescente negro, 15 anos com aparência “de maior”, porte atlético, cabelo “raspadinho”, usa correntão funk e brinco na orelha direita, aluno da 5ª C. JAPINHA – Adolescente oriental, 17 anos, usa óculos espelhado de design arrojado e, às vezes, gorro, aluno da 8ª B. TITIA – Professor de educação física, pele clara, calvo, 40 anos, com uma discreta barriga. TELMA BOMBINHA – Adolescente de 17 anos, gorda, com cabelos castanhos longos e anelados, aluna da 5ª C, vizinha de Mila. GUGA – Adolescente de 14 anos, branco, olhos azuis, esguio, cabelos loiros, longos e lisos, aluno da 7ª A. SÔNIA – Adolescente negra, magra, alta, rosto bonito, 17 anos, cabelos longos trançados, aluna da 8ª B. DONA VILMA – Senhora negra, forte, 50 anos, merendeira da escola. ZABELÃO – Mulher de vinte anos, baixa, branca, de cabelos negros muito curtos, usa piercings, ex-aluna da escola. ANDRESSA – Adolescente de 17 anos, pele clara, cabelo com topete tingido de loiro cinza ultra-claro, cabeleireiro, usa brinco na orelha esquerda e piercings, aluno da 8ª A, usa um bolsão onde guarda apetrechos para show de transformismo (peruca, vestido etc). Textos úteis para informar uma discussão, por parte do elenco, da violência na escola: ARAÚJO, Carla. “As marcas da violência na constituição da identidade de jovens da periferia”. In: Educação e Pesquisa – Revista da Faculdade de Educação da USP. São Paulo: FEUSP, v.27/1, jan/jun, 2001, 141-160. ARAÚJO, Valéria Amorim Arantes de. “Cognição, afetividade e moralidade”. In: Educação e Pesquisa – Revista da Faculdade de Educação da USP. São Paulo: FEUSP, v.26/2, jul/dez, 2000, 137-153. CAMACHO, Luiza Mitiko Yshiguro. “As sutilezas das faces da violência nas práticas escolares de adolescentes”. In: Educação e Pesquisa – Revista da Faculdade de Educação da USP. São Paulo: FEUSP, v.27/1, jan/jun, 2001, 123-140. ZANTEN, Agnés van. “Cultura da rua ou cultura da escola?”. In: Educação e Pesquisa – Revista da Faculdade de Educação da USP. São Paulo: FEUSP, v.26/1, jan/jun, 2000, 23-52. São Paulo, maio de 2002.