dado

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Dado nasceu no Humaitá (RJ) e foi criado em Copacabana e Araçatuba (SP). Voltou para o Rio em 1986 e desdentão vive aqui. É ator e diretor, trabalha com cinema, vídeo e teatro. Realizou um documentário sobre o Profeta Gentileza. Seu sonho é assistir à ruína do capeta capital, o que aos poucos vai se realizando.

O que que é isso! Só um surto, um susto à toa que não passa nunca nenhum motivo de pânico só o mesmo velho estranho surto subcutâneo crônico espécie de peste pra dentro uma febre baixa uma caixa onde meu ser não se encaixa quem? quem não o que só a máquina de fazer perguntas não pode responder e a esfinge: decifra-me ou devoro-te e na barriga milhares de respostas erradas a esfinge no alto do morro devoradora de aventureiros mas finge que é disso que falamos não é disso é daquilo daquele susto, daquele surto, daquela idiossincrasia UH!-sincrasia SIM!-sincrasia ai meu Deus quem é que me atende se todo mundo mente que me entende e eu mais não quem eu quem o médico o santo o faraó da pirâmide de Qéops Qefrem quem acho que variamos os caminhos estou variando quem está berrando no asfalto dessa madrugada de domingo quem xinga na rua uma hora dessas dessa noite sem lua quem grita fogo! mengo! ou aleluia quem se assusta com o mesmo velho interno surto e solta a caneta sobre o papel pautado quem não está deitado ainda quem não dorme no ocidente quem tem essa espécie de angústia essa inquietude do sujeito que busca alguma coisa no porão da alma a uma hora dessas em um século desses de desencanto e desespero desilusão descrença desterro destudo dessa vez eu consigo dizer assim de sopetão num susto sobre esse surto será que você não tá sentindo? será que você não quem mais meu Deus é quase agora é já já não demora o momento do parto e o surto é só a síndrome o sintoma um sim, enfim um alguém que vem mas vem logo vem que vou me jogar já já aliás já me joguei já lancei meu espírito meu corpo sobre esse século que voa

Essa febre que não passa essa febre eterna febre interna que ataca os ossos febre semelhante a febre que anuncia a erupção do dente do siso muito riso e pouco siso muita saúva e pouca saúde os males do Brasil são essas formigas que tudo devoram que invadem o cerne da matéria orgânica ou inorgânica e corroem como um câncer não faz como um ácido como a raiva o ressentimento a mágoa que se abram todas comportas que corra toda água má que se renove que retorne o fluxo quero água fresca pura parida da fonte sulfurosa do seio da terra quero água mineral água mineral água mineral

desenho: Marieta

é a febre, a febre me assalta de novo,o tremor, o transe,a náusea silenciosa,a embriaguez,a voracidade do tempo,da vida consumida,se consumindo,a voz calada,olhos abertos não vêem,mãos crispadas ou nada,nada,nada disse nada disso que apenas palavras, o hálito de abismo do tubarão,o fundo mais profundo do oceano neste cheiro aqui a dez centímetros de meu corpo essas presas esta boca aberta que nem percebe a febre nem enxerga o tremor que não vê o estado perturbado do meu ser e não fecha esta bocarra esta barra de osso dentada

Ai que vontade de largar tudo
virar música
e sair por aí
de dentro dos rádios de pilha
entrar pelos ouvidos das moças
balançar os ossos das pessoas

Ai que vontade de deitar nu
numa nuvem numa boa
virar chuva
e cair por aí
molhar a copa das árvores
refrescar a cabeça das pessoas

me largar
lavar o ar
e pingar sobre a Lagoa.

Rio, maio 97


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